Como o Evangelho de Marcos ensina a ensinar

por Frank de Alcantara em 01/09/2026

Como o Evangelho de Marcos ensina a ensinar

Ensinar não consiste apenas em formular uma mensagem correta. A mensagem precisa ser ouvida, compreendida, acolhida e, por fim, transformada em ação.

A surpresa é que um texto bíblico, com quase 2000 anos aborda estes conceitos de forma impressionante.

O quarto capítulo do Evangelho de Marcos organiza essas etapas em torno de uma imagem cotidiana: um semeador lança sementes sobre terrenos diferentes e obtém resultados diferentes.

A força da passagem não está em oferecer uma técnica moderna de comunicação antes do tempo. Não é uma premonição do que estaria por vir na sociedade. A força desta parábola está em reconhecer algo mais fundamental: a mesma palavra pode encontrar destinos distintos conforme a maneira pela qual é recebida. Marcos desloca, assim, parte da atenção do discurso para a escuta. Saímos de o que foi ensinado? e passamos a incluir o que aconteceu com o ensinamento depois que ele foi ouvido?

Esse deslocamento interessa à fé, mas também interessa a qualquer pessoa responsável por ensinar. Neste artigo, vamos examinar primeiro o texto bíblico e, depois, colocá-lo em diálogo com pesquisas sobre narrativa, atenção, memória e analogia. A ideia deste diálogo exige cuidado científico e pedagógico. Mas não só isso. Talvez algumas analogias leves melhorem o entendimento.

A psicologia pode esclarecer processos humanos da escuta. Não substitui o sentido da parábola, que a Igreja lê. O professor apenas reconhece, nela, o mesmo percurso da aula: ouvir, compreender, acolher e agir. A ciência descreve obstáculos desse percurso; não traduz a imagem em metáfora cognitiva nem reabre a exegese.

1. Uma parábola sobre a recepção da palavra

Marcos situa um Jesus peripatético diante de uma multidão reunida à beira do mar. Jesus entra em uma barca, senta-se e passa a ensinar por parábolas. A narrativa do semeador começa com um chamado direto à atenção. Na tradução católica da Bíblia Ave Maria, lemos:

“Ouvi: Saiu o semeador a semear.” (Mc 4,3)

Nos versículos seguintes, parte da semente cai à beira do caminho e é comida pelas aves. Outra parte encontra um terreno pedregoso, nasce depressa e seca porque não cria raiz. Uma terceira parte cresce entre espinhos e é sufocada. A última cai em terra boa e produz uma colheita abundante (Mc 4,4-9).

Quando a multidão se afasta, os Doze e as pessoas que permanecem junto de Jesus pedem uma explicação.

Preste atenção: a mudança de cenário importa: primeiro todos recebem a imagem; depois, um grupo menor continua a conversa. Nesse momento, o próprio texto sublinha a importância daquela parábola:

“Não entendeis essa parábola? Como entendereis então todas as outras?” (Mc 4,13)

Jesus apresenta, então, a correspondência central:

“O semeador semeia a palavra.” (Mc 4,14)

A íntegra de Marcos 4,3-20 pode ser consultada na mesma edição católica. A passagem reúne a parábola, a pergunta dos discípulos e a explicação dada por Jesus.

A explicação de Marcos 4,15-20 associa os quatro terrenos a quatro formas de recepção. No caminho, a palavra é retirada logo depois de ser ouvida. No terreno pedregoso, ela é recebida com alegria, mas não cria raiz e não resiste à tribulação ou à perseguição. Entre os espinhos, as preocupações, a ilusão das riquezas e outras paixões sufocam o que foi ouvido. Na terra boa, a palavra é ouvida, acolhida e produz fruto.

Essa sequência funciona como um alarme contra uma leitura apressada.

Jesus não começa pela lista de ouvintes. Começa por uma cena. Depois, a quem permanece, explica as relações da cena. É esse procedimento, e não uma teoria geral da didática, que interessa a quem ensina hoje.

A oposição principal não separa uma mensagem boa de uma mensagem ruim, pois a semente é a mesma. Também não separa simplesmente pessoas inteligentes de pessoas incapazes. O que varia é o percurso entre ouvir e frutificar.

2. O alcance e o limite do diálogo com a ciência

Uma parábola não é um experimento de psicologia, e um experimento de psicologia não é uma explicação do Reino de Deus. São domínios diferentes, bananas e bacon. A parábola trata da palavra, da resposta humana e do fruto em um horizonte religioso. As pesquisas científicas citadas neste artigo tratam de participantes, tarefas e medidas específicas. Aproximar os dois campos pode iluminar a experiência da escuta, desde que a atenta leitora mantenha a fronteira entre aproximação em identidade.

Não vamos dizer que as aves representam a distração, que Satanás é um nome antigo para um viés cognitivo ou que a terra boa corresponde a um desempenho elevado de memória. A tentação é grande, mas eu vou resistir. Porque essas equivalências reduziriam o texto bíblico e excederiam o que a ciência demonstrou. O que este pobre escriba pode fazer é mais modesto: observar alguns processos humanos que ajudam a compreender por que uma mensagem pode chamar a atenção, permanecer superficial, enfrentar resistência ou ser elaborada com profundidade.

Essa distinção preserva os dois lados da conversa.

3. Por que uma história pode envolver quem a ouve

Melanie Green e Timothy Brock (2000) chamaram de transporte narrativo o estado de envolvimento em uma história que reúne atenção, imaginação e resposta afetiva. Em quatro experimentos, os pesquisadores observaram que participantes mais envolvidos apresentaram avaliações e crenças mais coerentes com a narrativa lida; em um dos experimentos, também perceberam menos inconsistências inseridas no texto (GREEN; BROCK, 2000).

O resultado de Green e Brock não autoriza a conclusão de que toda história convence nem de que a narrativa desliga o pensamento crítico. Ele mostra algo mais preciso: o grau de envolvimento com uma história pode influenciar a maneira pela qual seu conteúdo é avaliado. Forma e conteúdo não chegam separadamente à leitora.

Marcos 4 usa justamente uma forma que exige participação.

Jesus não começa enumerando quatro perfis de ouvinte. Ele oferece um campo, sementes, aves, pedras, sol, espinhos e colheita. Os ouvintes acompanham uma cena antes de receber sua interpretação. Quando a explicação chega, a imagem já fornece uma estrutura para organizar as diferenças entre ouvir, permanecer e produzir fruto.

A parábola, contudo, faz mais do que atrair. Ela pede interpretação. O texto de Marcos exige a interpretação. É nesse ponto que precisamos passar do envolvimento para a elaboração.

4. Ouvir não é o mesmo que elaborar

Fergus Craik e Endel Tulving (1975) investigaram como diferentes formas de processar palavras afetavam sua recordação posterior. Em uma série de dez experimentos, tarefas voltadas ao significado produziram melhor retenção do que tarefas concentradas apenas em características visuais ou sonoras das palavras (CRAIK; TULVING, 1975). A pesquisa foi feita com palavras e tarefas controladas, não com parábolas ou convicções religiosas. O nível de complexidade cognitiva é bem diferente. Ainda assim, ela sustenta uma distinção útil: ter contato com uma mensagem não equivale a trabalhar com seu significado.

Essa diferença ajuda a compreender o contraste entre a multidão e os discípulos sem reduzir uma à passividade e os outros à superioridade. Todos ouvem a parábola. Alguns permanecem, perguntam e recebem uma explicação. O segundo momento não apenas repete o primeiro; ele destaca as relações que estamos estudando. A semente passa a representar a palavra, e os terrenos passam a representar maneiras de recebê-la.

O paralelo é inevitável e proveitoso.

O ensino ganha profundidade quando a pessoa consegue relacionar o que acabou de ouvir com algo que já conhece, formular uma pergunta e acompanhar as consequências da resposta. Isso não garante concordância, conversão nem fruto. Garante apenas que a mensagem deixou de ser um som passageiro e se tornou um objeto de reflexão.

Este é o ponto que precisamos alcançar em sala de aula.

O terreno pedregoso oferece uma advertência importante para quem ensina. Uma reação imediata e positiva pode ser sincera, mas a intensidade do primeiro entusiasmo não mede a permanência do aprendizado. A própria parábola distingue o acolhimento alegre da formação de raízes. Em linguagem educacional, a aula que impressiona ainda precisa tornar-se compreensão, revisão e prática.

5. A atenção também tem contexto

Michael Kane e seus colaboradores (2007) acompanharam 124 universitários durante sete dias. Em momentos distribuídos pela rotina, os participantes informavam se seus pensamentos permaneciam na atividade ou haviam se afastado dela. Em tarefas percebidas como exigentes, diferenças na capacidade de manter o foco ajudaram a prever quem permanecia mais atento (KANE et al., 2007).

Infelizmente o estudo não transforma os espinhos de Marcos em uma medida de laboratório. Ele apenas confirma que a atenção pode se afastar daquilo que estamos fazendo e que as exigências do contexto importam. Para quem ensina, a consequência é direta: não basta culpar a ouvinte por não reter uma mensagem. É preciso considerar o ambiente, a duração, a clareza, as preocupações concorrentes e o esforço exigido para acompanhar o raciocínio.

Marcos menciona preocupações, riquezas e paixões, mas lhes atribui um sentido moral e espiritual próprio. A psicologia não esgota esse sentido. Ela permite apenas reconhecer que uma mensagem não entra em uma vida vazia ou abarrotada. Ela encontra compromissos anteriores, urgências, temores e desejos que já disputam espaço e se não houver espaço, ela não entra.

As convicções anteriores, seu referencial teórico individual e pessoal, também influenciam a avaliação de argumentos.

Charles Taber e Milton Lodge (2006) demonstraram esse efeito em dois experimentos sobre temas políticos. Os participantes avaliaram argumentos compatíveis com suas posições como mais fortes, contestaram com maior intensidade os argumentos contrários e, quando puderam escolher, procuraram informações favoráveis ao que já pensavam (TABER; LODGE, 2006). Novamente há limites que a curiosa leitora precisa considerar.

Como o estudo tratou de controvérsias políticas, não podemos transferir seus resultados automaticamente para a fé. Podemos, porém, conservar uma cautela profissional: nenhuma audiência recebe uma mensagem sem história, valores ou compromissos prévios. O que parece corroborar o senso comum e os outros artigos que discutimos antes.

Essa cautela deve mudar a postura de quem ensina.

Em vez de imaginar uma resistência abstrata ou uma deficiência moral genérica, o professor precisa descobrir qual pergunta a ouvinte está realmente tentando responder. Uma resposta correta para a pergunta errada continua sendo uma resposta perdida.

6. A analogia precisa ser mapeada

Dedre Gentner propôs que uma analogia funciona quando relações de um domínio conhecido são projetadas sobre outro domínio. O ponto decisivo não é a semelhança superficial entre os objetos, mas a correspondência entre as relações que os organizam (GENTNER, 1983).

Na parábola, o domínio conhecido é a semeadura. A semente encontra um terreno, enfrenta condições diferentes e produz ou não produz fruto. O domínio que precisa ser compreendido é a recepção da palavra. A palavra encontra uma pessoa, atravessa condições diferentes e produz ou não produz uma transformação. A imagem ensina porque conserva uma relação, não porque uma pessoa seja literalmente um pedaço de terra.

O limite da analogia é igualmente importante.

O solo agrícola não escolhe sua composição, não pede explicações e não muda deliberadamente de lugar. Uma pessoa pode perguntar, reconsiderar, buscar ajuda, reorganizar hábitos e cultivar a própria atenção. Se ignorarmos esse limite, a parábola se transforma em uma classificação rígida de pessoas. Se respeitarmos o limite, a parábola se torna também um convite ao exame e à mudança.

Esse convite alcança quem ensina. O semeador não controla cada resultado, mas continua responsável por semear. A abundância do gesto não elimina a necessidade de conhecer o terreno, acompanhar o crescimento e reconhecer que o fruto exige tempo.

7. O que Marcos ensina a quem ensina

A primeira lição é que a exposição não encerra o ensino. Dizer algo com clareza é necessário, mas a parábola acompanha o que acontece depois da fala. Uma mensagem pode nem chegar a ocupar a atenção; pode produzir entusiasmo sem raiz; pode começar a crescer e perder espaço; pode, enfim, ser acolhida e transformar a vida.

A segunda lição é que uma boa imagem não dispensa explicação. Jesus conta a parábola e depois responde às perguntas dos que permanecem com ele. Para a educação, isso recomenda uma combinação exigente: apresentar uma forma memorável, abrir espaço para perguntas e tornar explícitas as relações que a imagem deseja ensinar.

A terceira lição é que o fruto não se confunde com a lembrança. Recordar uma frase ou repetir uma interpretação demonstra alguma aprendizagem, mas Marcos estabelece um critério mais alto: a palavra acolhida produz fruto. No campo educacional, o equivalente prudente é a capacidade de usar o que foi aprendido para compreender, decidir e agir.

Por fim, a parábola ensina humildade. O professor pode preparar a mensagem, escolher a imagem, explicar a relação e cuidar do ambiente. Não pode fabricar a resposta interior da outra pessoa. Ensinar envolve responsabilidade sem domínio. O ensino é meu, o aprendizado é da atenta leitora. Qualquer um pode ensinar, mas ninguém pode garantir que o outro aprenda.

8. Uma história que examina a escuta

O Evangelho de Marcos supera um tratado de psicologia em oferecer uma percepção profunda sobre o ensino. A parábola do semeador já possui seu próprio centro: a palavra é anunciada, encontra diferentes formas de acolhimento e mostra sua fecundidade pelo fruto.

As pesquisas sobre transporte narrativo, elaboração semântica, atenção, avaliação motivada e analogia ajudam a nomear alguns processos humanos presentes em qualquer situação de aprendizagem. Elas explicam por que o envolvimento importa, por que o contato superficial não basta, por que o contexto disputa a atenção, por que convicções anteriores afetam a avaliação e por que uma imagem precisa ter suas relações compreendidas. Nenhuma delas, isolada ou em conjunto, prova o sentido teológico da parábola.

Marcos oferece uma conclusão mais sóbria e mais útil. Quem ensina precisa cuidar da palavra, da forma e das condições de escuta. Quem ouve precisa decidir o que fará com aquilo que recebeu. Entre a semente lançada e o fruto existe um percurso, e é nesse percurso que a aprendizagem é possível.

Referências

BÍBLIA SAGRADA. São Marcos, capítulo 4. Bíblia Ave Maria. [S. l.]: Bíblia Católica Online, [s. d.]. Disponível em: https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-marcos/4/. Acesso em: 1 set. 2026.

CRAIK, Fergus I. M.; TULVING, Endel. Depth of processing and the retention of words in episodic memory. Journal of Experimental Psychology: General, Washington, DC, v. 104, n. 3, p. 268-294, 1975. DOI: 10.1037/0096-3445.104.3.268. Disponível em: https://doi.org/10.1037/0096-3445.104.3.268. Acesso em: 1 set. 2026.

GENTNER, Dedre. Structure-mapping: a theoretical framework for analogy. Cognitive Science, [S. l.], v. 7, n. 2, p. 155-170, 1983. DOI: 10.1207/s15516709cog0702_3. Disponível em: https://doi.org/10.1207/s15516709cog0702_3. Acesso em: 1 set. 2026.

GREEN, Melanie C.; BROCK, Timothy C. The role of transportation in the persuasiveness of public narratives. Journal of Personality and Social Psychology, Washington, DC, v. 79, n. 5, p. 701-721, 2000. DOI: 10.1037/0022-3514.79.5.701. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11079236/. Acesso em: 1 set. 2026.

KANE, Michael J. et al. For whom the mind wanders, and when: an experience-sampling study of working memory and executive control in daily life. Psychological Science, Washington, DC, v. 18, n. 7, p. 614-621, 2007. DOI: 10.1111/j.1467-9280.2007.01948.x. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2007.01948.x. Acesso em: 1 set. 2026.

TABER, Charles S.; LODGE, Milton. Motivated skepticism in the evaluation of political beliefs. American Journal of Political Science, [S. l.], v. 50, n. 3, p. 755-769, 2006. DOI: 10.1111/j.1540-5907.2006.00214.x. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1540-5907.2006.00214.x. Acesso em: 1 set. 2026.

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