Testes Paramétricos: t, z e Qui-Quadrado

por Frank de Alcantara em 16/08/2026

Testes Paramétricos: t, z e Qui-Quadrado

O nono artigo construiu o teste de hipótese pela porta da randomização e da permutação. Ele evita uma forma paramétrica específica, mas não é livre de hipóteses: os dados ou rótulos precisam ser permutáveis sob a hipótese nula, de acordo com o desenho. Quando um modelo probabilístico é defensável, a estatística clássica oferece testes de fórmula fechada, que produzem uma estatística e um p-valor sem simular milhares de reamostragens.

Este artigo apresenta essa família paramétrica. Começamos pela transição do teste $z$, que supõe $\sigma$ conhecido, ao teste $t$ de Student, que o estima dos dados. Percorremos os testes $t$ para uma amostra, duas amostras independentes e amostras pareadas, e o teste $z$ para proporções, revelando a sua ligação exata com o qui-quadrado. Fechamos a parte de contagens com o teste qui-quadrado de aderência e de independência, e dedicamos uma seção inteira aos pressupostos, porque um teste paramétrico aplicado fora das suas condições produz um p-valor com aparência de rigor e conteúdo de ficção. Usamos os dados da equipe dos artigos anteriores e o combinado: exemplos em C++23, laboratório em Python no Colab e um experimento em JavaScript.

1. Do z ao t

Suponha que queiramos testar se a média de uma população vale um valor hipotético $\mu_0$, com base em uma amostra de tamanho $n$. Se, por um milagre improvável, conhecêssemos o desvio padrão populacional $\sigma$, o sétimo artigo já nos daria a ferramenta: pelo teorema central do limite, a média amostral $\bar{x}$ tem erro padrão $\sigma/\sqrt{n}$, e a estatística padronizada

\[z=\frac{\bar{x}-\mu_0}{\sigma/\sqrt{n}}\]

segue aproximadamente a normal padrão sob a hipótese nula $H_0:\mu=\mu_0$. Comparar $z$ com os quantis da normal dá o p-valor. Este é o teste $z$, e a sua limitação é evidente: quase nunca conhecemos $\sigma$.

Na prática, substituímos $\sigma$ pelo desvio padrão amostral $s$, e é aqui que nasce uma distribuição nova. A estatística resultante,

\[t=\frac{\bar{x}-\mu_0}{s/\sqrt{n}},\]

não segue mais a normal, porque o denominador agora é aleatório: $s$ varia de amostra para amostra e, em amostras pequenas, subestima $\sigma$ com frequência apreciável. A distribuição correta de $t$ é a $t$ de Student com $n-1$ graus de liberdade, apresentada no quinto artigo: tem a forma de sino da normal, porém com caudas mais pesadas, tanto mais pesadas quanto menor $n$. Os graus de liberdade, $n-1$, contam a informação que sobrou para estimar a dispersão depois de gastar uma unidade na média, exatamente o divisor do desvio amostral do segundo artigo.

A diferença entre $z$ e $t$ importa em amostras pequenas e desaparece em grandes. O valor crítico bicaudal a $5\%$ da $t$ é $t_{4,\,0{,}975}=2{,}776$ para $n=5$, bem acima do $z=1{,}96$; para $n=30$, cai a $t_{29,\,0{,}975}=2{,}045$; para $n=100$, a $t_{99,\,0{,}975}=1{,}984$, quase o $z$. Quando $\sigma$ é estimado e o modelo normal é adequado, a referência correta em amostra finita é a distribuição $t$. Amostras grandes aproximam $t$ da normal, mas não consertam dependência, seleção enviesada ou uma média populacional inexistente.

1.1 Exercícios da Seção 1

1. Escreva a estatística $z$ para testar $H_0:\mu=100$ com $\bar{x}=104$, $\sigma=15$ conhecido e $n=25$.

Solução:

O erro padrão é $\sigma/\sqrt{n}=15/5=3$, e a estatística é $z=(104-100)/3\approx1{,}333$. O p-valor bicaudal é $2\,P(Z>1{,}333)\approx0{,}182$, acima de $0{,}05$, então não se rejeita a nula: uma média amostral de $104$ é compatível com $\mu=100$ sob esse erro padrão.

2. Escreva a estatística $t$ para os mesmos dados, mas com $\sigma$ desconhecido e estimado por $s=15$.

Solução:

A forma é idêntica, $t=(104-100)/(15/\sqrt{25})=1{,}333$, mas a distribuição de referência muda: agora é a $t$ com $n-1=24$ graus de liberdade, não a normal. O p-valor bicaudal usa $t_{24}$, dando $\approx0{,}195$, ligeiramente maior que o do $z$, porque as caudas mais pesadas da $t$ tornam o mesmo valor menos extremo. A diferença é pequena com $n=25$.

3. Compare os valores críticos $z$ e $t$ para $n=5$ e $n=100$, a $5\%$ bicaudal.

Solução:

A comparação será:

$n$ Graus de liberdade Crítico $t$ Crítico $z$ Excesso de $t$
$5$ $4$ $2{,}776$ $1{,}96$ cerca de $42\%$
$100$ $99$ $1{,}984$ $1{,}96$ cerca de $1{,}2\%$

A distância entre $t$ e $z$ encolhe rapidamente; com algumas dezenas de observações, a diferença entre os críticos já é pequena.

4. Por que a distribuição $t$ tem caudas mais pesadas que a normal?

Solução:

Porque o denominador $s/\sqrt{n}$ é aleatório: $s$ estima $\sigma$ com erro, e em amostras pequenas subestima $\sigma$ em uma fração apreciável dos casos, inflando a estatística $t$. Essa incerteza adicional no denominador espalha a distribuição, produzindo valores extremos com mais frequência que a normal, cujo denominador $\sigma/\sqrt{n}$ é fixo. Quanto menor $n$, mais ruidoso $s$ e mais pesadas as caudas.

5. Qual o risco de usar $z$ em vez de $t$ quando $\sigma$ é estimado em uma amostra de $n=6$?

Solução:

Usar o valor crítico $z=1{,}96$ em vez de $t_{5,\,0{,}975}=2{,}571$ torna o teste anticonservador: rejeita-se a nula com evidência mais fraca do que a devida, e a taxa de erro do tipo I real supera o $5\%$ nominal. Do lado do intervalo de confiança, a faixa sai estreita demais, com cobertura abaixo dos $95\%$ prometidos. Com $n=6$, a diferença é grande e o erro, sério; a $t$ é obrigatória.

2. Testes t

O teste $t$ vem em três sabores, um para cada desenho de dados. O teste $t$ de uma amostra compara a média de um único grupo com um valor hipotético $\mu_0$, com a estatística $t=(\bar{x}-\mu_0)/(s/\sqrt{n})$ e $n-1$ graus de liberdade. Testando se a média salarial da equipe difere de $10$ mil reais, com $\bar{x}=11{,}7125$, $s=5{,}227$ e $n=8$, obtemos $t=(11{,}7125-10)/(5{,}227/\sqrt{8})\approx0{,}927$, com $7$ graus de liberdade e p-valor bicaudal $\approx0{,}385$. Não se rejeita a nula: com oito salários, a média observada é compatível com uma média populacional de $10$ mil.

O teste $t$ de duas amostras independentes compara as médias de dois grupos distintos. Na versão clássica, que supõe variâncias iguais, usa-se a variância combinada (pooled) $s_p^2=\frac{(n_1-1)s_1^2+(n_2-1)s_2^2}{n_1+n_2-2}$, e a estatística é $t=(\bar{x}_1-\bar{x}_2)/\sqrt{s_p^2(1/n_1+1/n_2)}$, com $n_1+n_2-2$ graus de liberdade. Para os grupos ${70,75,80,68,77}$ e ${66,71,76,64,73}$, ambos com variância $24{,}5$, obtemos $s_p^2=24{,}5$, $t\approx1{,}278$, $8$ graus de liberdade e p-valor $\approx0{,}237$. O resultado é instrutivo: apesar de o $d$ de Cohen desses grupos ser $0{,}81$, um efeito grande calculado no nono artigo, o teste não rejeita a nula, porque cinco observações por grupo dão pouco poder. Efeito grande e amostra pequena podem coexistir com um resultado não significativo, a lição de poder do artigo anterior encarnada em números.

O teste $t$ pareado aplica-se quando as observações vêm em pares naturais, tipicamente medidas antes e depois no mesmo sujeito. Em vez de comparar dois grupos, calcula-se a diferença dentro de cada par e aplica-se o teste de uma amostra a essas diferenças, testando se a diferença média é zero. Para medidas ${120,118,125,122,119}$ antes e ${115,116,120,119,117}$ depois, as diferenças têm média $3{,}4$, e o teste dá $t\approx5{,}01$, $4$ graus de liberdade e p-valor $\approx0{,}007$: rejeita-se a nula. O contraste com o teste de duas amostras é revelador: o pareamento remove a variabilidade entre sujeitos, ganhando poder, e é por isso que um desenho pareado detecta efeitos que um desenho independente do mesmo tamanho perderia. Quando as variâncias dos dois grupos independentes diferem muito, a correção de Welch ajusta os graus de liberdade para baixo, protegendo contra o excesso de confiança da versão pooled; ela é hoje o padrão recomendado, e reduz os graus de liberdade de forma proporcional à disparidade das variâncias.

2.1 Exercícios da Seção 2

1. Teste se a média salarial da equipe difere de $10$ mil reais.

Solução:

Com $\bar{x}=11{,}7125$, $s=5{,}227$ e $n=8$, a estatística é $t=(11{,}7125-10)/(5{,}227/\sqrt{8})=1{,}7125/1{,}848\approx0{,}927$, com $7$ graus de liberdade. O p-valor bicaudal, usando $t_7$, é $\approx0{,}385$, bem acima de $0{,}05$. Não se rejeita $H_0:\mu=10$; a diferença de $1{,}7$ mil está dentro do que o acaso amostral produz com oito observações tão dispersas.

2. Aplique o teste $t$ de duas amostras aos grupos ${70,75,80,68,77}$ e ${66,71,76,64,73}$.

Solução:

As médias são $74$ e $70$, ambas as variâncias valem $24{,}5$, logo $s_p^2=24{,}5$. A estatística é $t=(74-70)/\sqrt{24{,}5(1/5+1/5)}=4/\sqrt{9{,}8}\approx1{,}278$, com $8$ graus de liberdade. O p-valor bicaudal é $\approx0{,}237$: não se rejeita a nula, apesar de $d=0{,}81$, porque $n=5$ por grupo dá poder insuficiente.

3. Aplique o teste $t$ pareado a antes ${120,118,125,122,119}$ e depois ${115,116,120,119,117}$.

Solução:

As diferenças antes menos depois são ${5,2,5,3,2}$, com média $3{,}4$ e desvio $\approx1{,}517$. A estatística é $t=3{,}4/(1{,}517/\sqrt{5})\approx5{,}01$, com $4$ graus de liberdade, e p-valor $\approx0{,}007$. Rejeita-se a nula: houve redução significativa. O pareamento eliminou a variação entre sujeitos, concentrando o sinal na diferença intra-par.

4. Por que o teste pareado tem mais poder que o de duas amostras independentes, para os mesmos sujeitos?

Solução:

No desenho independente, a variância entre sujeitos entra no erro padrão da diferença de médias, inflando-o. No desenho pareado, cada sujeito serve de seu próprio controle, e a diferença intra-par cancela a variação individual, deixando apenas a variação do efeito. Com um erro padrão menor, a mesma diferença média produz uma estatística maior e um p-valor menor. O pareamento troca variabilidade entre sujeitos por poder.

5. Quando usar a correção de Welch, e o que ela ajusta?

Solução:

Usa-se Welch quando as variâncias dos dois grupos independentes diferem apreciavelmente, ou por precaução, já que ela é hoje o padrão. Ela não usa a variância combinada; em vez disso, ajusta os graus de liberdade para baixo por uma fórmula que os reduz quanto mais díspares forem as variâncias e os tamanhos. Graus de liberdade menores elevam o valor crítico, tornando o teste mais conservador e protegendo a taxa de erro do tipo I, que a versão pooled violaria sob variâncias desiguais.

3. Teste para proporções

Para dados binários, conversão ou não, defeito ou não, o parâmetro de interesse é uma proporção, e o teste apropriado usa a aproximação normal da distribuição amostral da proporção do sétimo artigo. O teste $z$ de uma proporção compara uma proporção observada $\hat{p}$ com um valor hipotético $p_0$, com a estatística $z=(\hat{p}-p_0)/\sqrt{p_0(1-p_0)/n}$, na qual o erro padrão usa $p_0$, e não $\hat{p}$, porque sob a nula a variância é determinada por $p_0$. A aproximação é boa quando $np_0$ e $n(1-p_0)$ são ambos maiores que cerca de $5$ ou $10$.

O teste $z$ de duas proporções compara as taxas de dois grupos, o caso do experimento A/B. Sob a nula de igualdade, estima-se uma proporção combinada $\hat{p}=(c_1+c_2)/(n_1+n_2)$ e o erro padrão $\sqrt{\hat{p}(1-\hat{p})(1/n_1+1/n_2)}$, dando $z=(\hat{p}_1-\hat{p}_2)/\text{EP}$. Para o experimento A/B do artigo anterior, $20/200$ contra $40/200$, a proporção combinada é $60/400=0{,}15$, o erro padrão é $\sqrt{0{,}15\times0{,}85\times(1/200+1/200)}\approx0{,}0357$, e $z=(0{,}20-0{,}10)/0{,}0357\approx2{,}801$, com p-valor bicaudal $\approx0{,}005$. Rejeita-se a igualdade, o mesmo veredito que o teste de permutação deu, agora por fórmula fechada.

Há uma identidade elegante que conecta este teste ao da próxima seção: o quadrado da estatística $z$ de duas proporções é exatamente a estatística qui-quadrado da tabela $2\times2$ correspondente, $z^2=\chi^2$. Para o exemplo, $z^2=2{,}801^2\approx7{,}843$, que é precisamente o valor do qui-quadrado da tabela, e os p-valores coincidem. A identidade não é coincidência: os dois testes medem a mesma discrepância entre observado e esperado sob independência, um na escala da diferença de proporções, o outro na escala dos desvios quadráticos. Reconhecer que são o mesmo teste em disfarces diferentes evita a confusão de tratá-los como análises independentes.

3.1 Exercícios da Seção 3

1. Teste se uma moeda que deu $60$ caras em $100$ lançamentos é justa.

Solução:

Sob $H_0:p_0=0{,}5$, o erro padrão é $\sqrt{0{,}5\times0{,}5/100}=0{,}05$, e a estatística é $z=(0{,}60-0{,}50)/0{,}05=2{,}0$. O p-valor bicaudal é $2\,P(Z>2)\approx0{,}0455$, logo abaixo de $0{,}05$: rejeita-se, por pouco, a hipótese de moeda justa. Com $np_0=n(1-p_0)=50$, a aproximação normal é excelente.

2. Aplique o teste $z$ de duas proporções ao experimento A/B $20/200$ contra $40/200$.

Solução:

As proporções são $\hat{p}_1=0{,}10$ e $\hat{p}_2=0{,}20$; a combinada é $\hat{p}=60/400=0{,}15$. O erro padrão é $\sqrt{0{,}15\times0{,}85\times(1/200+1/200)}=\sqrt{0{,}1275/200}\cdot\sqrt{2}\approx0{,}0357$. A estatística é $z=0{,}10/0{,}0357\approx2{,}801$, com p-valor bicaudal $\approx0{,}005$. Rejeita-se a igualdade, confirmando o veredito do teste de permutação do nono artigo.

3. Verifique a identidade $z^2=\chi^2$ para o exemplo anterior.

Solução:

O quadrado da estatística é $z^2=2{,}801^2\approx7{,}843$. Construindo a tabela $2\times2$ de conversões e não conversões dos dois grupos e calculando o qui-quadrado sem correção, obtém-se exatamente $\chi^2\approx7{,}843$, e o p-valor da $\chi^2_1$ coincide com o p-valor bicaudal do $z$, $\approx0{,}005$. Os dois testes são algebricamente o mesmo para tabelas $2\times2$.

4. Por que o erro padrão do teste de uma proporção usa $p_0$ e não $\hat{p}$?

Solução:

Porque o p-valor é calculado sob a hipótese nula, que fixa $p=p_0$. Sob $H_0$, a variância da proporção amostral é $p_0(1-p_0)/n$, determinada por $p_0$, e é essa a variância correta para padronizar a estatística de teste. Usar $\hat{p}$ no erro padrão seria apropriado para um intervalo de confiança, que não condiciona na nula, mas não para o teste, cuja distribuição de referência é a da nula.

5. Quando a aproximação normal do teste de proporções falha, e o que usar?

Solução:

Ela falha quando $np$ ou $n(1-p)$ é pequeno, vamos dizer abaixo de $5$ a $10$, situação de amostras pequenas ou proporções extremas próximas de $0$ ou $1$. Nesses casos, a distribuição binomial é assimétrica e a aproximação normal erra. A alternativa exata é o teste exato de Fisher para tabelas de contingência, ou o teste binomial exato para uma proporção, que não dependem da aproximação e são o padrão seguro para contagens pequenas.

4. Qui-quadrado

O teste qui-quadrado ($\chi^2$) mede a discrepância entre frequências observadas e esperadas, e vem em duas formas. O teste de aderência (goodness of fit) verifica se uma variável categórica segue uma distribuição hipotética. Para cada categoria $i$, denotaremos por $O_i$ a frequência observada e por $E_i$ a frequência esperada sob a hipótese. A estatística é

\[\chi^2=\sum_i\frac{(O_i-E_i)^2}{E_i},\]

na qual $O_i$ é a frequência observada da categoria $i$ e $E_i$ a esperada sob a hipótese, e sob $H_0$ ela segue a distribuição $\chi^2$ do quinto artigo com $k-1$ graus de liberdade, onde $k$ é o número de categorias. Testando se um dado é justo a partir de $60$ lançamentos com frequências observadas ${8,12,10,15,9,6}$, o esperado é $10$ por face, e $\chi^2=\sum(O_i-10)^2/10=(4+4+0+25+1+16)/10=5{,}0$, com $5$ graus de liberdade e p-valor $\approx0{,}416$. Não se rejeita: as frequências são compatíveis com um dado justo.

O teste de independência verifica se duas variáveis categóricas estão associadas, usando a tabela de contingência do quarto artigo. A frequência esperada de cada célula, sob independência, é o produto das marginais dividido pelo total, $E_{ij}=(\text{linha}_i\times\text{coluna}_j)/N$, exatamente a definição de independência $P(A\cap B)=P(A)P(B)$ traduzida em contagens. A estatística soma $(O-E)^2/E$ sobre todas as células, com $(r-1)(c-1)$ graus de liberdade para uma tabela $r\times c$. Para uma tabela $2\times3$ com linhas ${30,20,10}$ e ${15,25,20}$, os esperados são ${22{,}5;22{,}5;15}$ em cada linha, e $\chi^2\approx8{,}889$, com $2$ graus de liberdade e p-valor $\approx0{,}012$: rejeita-se a independência, as variáveis estão associadas.

O qui-quadrado depende de uma aproximação assintótica. A regra todas as esperadas acima de $5$ é conservadora e simples; um critério comum aceita esperados abaixo de $5$ em até $20\%$ das células, desde que nenhum fique abaixo de $1$, mas o desempenho também depende da estrutura da tabela. Em tabelas $2\times2$, a correção de continuidade de Yates reduz a discrepância para compensar a aproximação de contagens discretas por uma distribuição contínua. Ela pode ser excessivamente conservadora e não deve ser aplicada como reflexo automático.

Com marginais fixadas pelo desenho e amostras pequenas, o teste exato de Fisher é uma alternativa natural para $2\times2$. Exato significa que controla o erro sob seu modelo condicional, não que seja sempre mais poderoso ou que dispense discutir o mecanismo amostral. Para tabelas maiores ou marginais não fixas, métodos exatos, Monte Carlo ou modelos específicos podem ser preferíveis. Na tabela ${{8,2},{3,7}}$, Pearson sem correção dá $\chi^2\approx5{,}05$ e p $\approx0{,}025$, enquanto Yates dá $\chi^2\approx3{,}23$ e p $\approx0{,}072$. A divergência é um aviso de que a aproximação é sensível neste tamanho amostral, não uma ordem para escolher o resultado desejado.

4.1 Exercícios da Seção 4

1. Teste se um dado é justo a partir das frequências ${8,12,10,15,9,6}$ em $60$ lançamentos.

Solução:

Sob $H_0$ de dado justo, cada face é esperada $60/6=10$ vezes. A estatística é $\chi^2=\frac{(8-10)^2+(12-10)^2+(10-10)^2+(15-10)^2+(9-10)^2+(6-10)^2}{10}=\frac{4+4+0+25+1+16}{10}=5{,}0$, com $k-1=5$ graus de liberdade. O p-valor é $P(\chi^2_5>5{,}0)\approx0{,}416$: não se rejeita a hipótese de dado justo.

2. Calcule as frequências esperadas de uma tabela $2\times3$ com linhas ${30,20,10}$ e ${15,25,20}$.

Solução:

Os totais de linha são $60$ e $60$; os de coluna, $45$, $45$ e $30$; o total geral, $120$. Cada esperado é $E_{ij}=(\text{linha}_i\times\text{coluna}_j)/120$. Para a primeira coluna, $E=60\times45/120=22{,}5$ em ambas as linhas; para a segunda, também $22{,}5$; para a terceira, $60\times30/120=15$. Os esperados são ${22{,}5;22{,}5;15}$ em cada linha, simétricos porque as duas linhas têm o mesmo total.

3. Complete o teste de independência da tabela anterior.

Solução:

A estatística soma $(O-E)^2/E$ sobre as seis células: $\frac{(30-22{,}5)^2}{22{,}5}+\frac{(20-22{,}5)^2}{22{,}5}+\frac{(10-15)^2}{15}+\frac{(15-22{,}5)^2}{22{,}5}+\frac{(25-22{,}5)^2}{22{,}5}+\frac{(20-15)^2}{15}$. Isso dá $2{,}5+0{,}278+1{,}667+2{,}5+0{,}278+1{,}667=8{,}889$, com $(2-1)(3-1)=2$ graus de liberdade. O p-valor é $\approx0{,}012$: rejeita-se a independência.

4. Determine os graus de liberdade de uma tabela de contingência $r\times c$ e justifique.

Solução:

São $(r-1)(c-1)$. Fixadas as marginais (totais de linha e coluna), que o teste toma como dadas, uma vez preenchidas $r-1$ linhas e $c-1$ colunas de células, todas as demais ficam determinadas pela exigência de que cada linha e cada coluna some o seu total. Restam, portanto, $(r-1)(c-1)$ células livres, e esse é o número de graus de liberdade. Para a tabela $2\times3$, $(1)(2)=2$.

5. em uma tabela $2\times2$ pequena, Pearson e Yates levam a decisões diferentes a $5\%$. O que essa divergência ensina e que alternativa deve ser considerada?

Solução:

A decisão depende fortemente de como a distribuição discreta foi aproximada, portanto a amostra está em uma região na qual a aproximação assintótica merece cautela. Yates tende a ser conservador e Pearson pode ser liberal em certas configurações. Com marginais fixadas e uma tabela $2\times2$, deve-se considerar Fisher e relatar o método escolhido antes de olhar o resultado. O desenho e o estimando continuam determinando a interpretação.

4.2 Laboratório: de onde vem o qui-quadrado

Edite as quatro células da tabela abaixo. O laboratório recalcula frequências esperadas, resíduos de Pearson e a contribuição $(O-E)^2/E$ de cada célula. Alterne entre Pearson, Yates e Fisher para ver quando a escolha do procedimento afeta a conclusão.

A barra de contribuição localiza quais células afastam a tabela da independência. O painel também avisa quando os valores esperados tornam a aproximação assintótica sensível.

5. Pressupostos e o que fazer quando falham

Todo teste compra sua calibração com pressupostos. O teste $t$ de uma amostra é exato para observações independentes de uma população normal; no teste pareado, a normalidade se refere às diferenças dentro dos pares; no teste de dois grupos, refere-se aos resíduos dentro de cada grupo. Em amostras grandes, o teorema central do limite pode tornar a inferência sobre a média razoável sob desvios moderados, desde que a variância exista e nenhuma observação domine. Caudas muito pesadas, dependência ou amostragem enviesada não desaparecem por usar a distribuição $t$.

Histogramas, QQ-plots e conhecimento do processo ajudam a avaliar assimetria, caudas e valores influentes. Um teste formal de normalidade não deve funcionar como porteiro automático: em amostras pequenas ele tem pouco poder, e em amostras enormes detecta desvios irrelevantes. A escolha do método deve considerar o estimando, o desenho e a sensibilidade, preferencialmente definidos antes de observar qual alternativa produz o menor p-valor.

O teste $t$ de duas amostras na versão pooled pressupõe, além da normalidade, homogeneidade de variância (homoscedasticity): os dois grupos devem ter variâncias parecidas. Quando essa condição falha, a variância combinada mistura variâncias desiguais e distorce a estatística, e a correção de Welch da Seção 2, que não combina as variâncias e ajusta os graus de liberdade, é a resposta. O qui-quadrado, por sua vez, pressupõe frequências esperadas suficientes, o limite de cerca de $5$ por célula da Seção 4. Cada teste tem a sua condição, e conhecê-la é parte de sabê-lo usar.

Métodos por postos respondem a perguntas próprias. O teste de Mann e Whitney avalia, em uma formulação comum, se uma observação aleatória de um grupo tende a superar uma do outro; sob igualdade de formas, isso pode ser interpretado como deslocamento de localização. Com formas ou dispersões diferentes, não é simplesmente um teste de medianas. O teste de postos sinalizados de Wilcoxon trabalha com diferenças pareadas e usa simetria das diferenças para uma interpretação de localização; o teste dos sinais exige menos estrutura, embora geralmente tenha menos poder.

O teste de permutação também requer uma hipótese: as unidades ou rótulos devem ser permutáveis sob a nula, respeitando pares, blocos, conglomerados e o mecanismo de randomização. Permutar livremente observações dependentes ou grupos com distribuições distintas pode produzir um p-valor inválido. Métodos robustos, bootstrap, modelos de variância e estatísticas estudantizadas ampliam as alternativas. A escolha não é um ritual de testar normalidade e trocar de teste, mas uma decisão sobre a pergunta e sobre quais hipóteses o desenho sustenta.

5.1 Exercícios da Seção 5

1. Que pressuposto o teste $t$ faz, e quando o teorema central do limite o protege?

Solução:

No caso de uma amostra, a distribuição $t$ é exata sob observações independentes e normalmente distribuídas; no pareado, a condição se aplica às diferenças. Em amostras grandes, variância finita e ausência de observações dominantes podem tornar a aproximação razoável sob desvios moderados. O TCL não corrige dependência, seleção ou caudas sem os momentos necessários.

2. Como diagnosticar a normalidade antes de aplicar um teste $t$?

Solução:

O QQ-plot compara quantis empíricos e normais: curvaturas sistemáticas sugerem assimetria ou caudas diferentes, e pontos isolados revelam observações influentes. Ele deve ser lido com histograma, contexto e tamanho amostral. Nenhum gráfico prova normalidade, e um teste formal isolado não deve decidir automaticamente o método.

3. Que pressuposto adicional o teste $t$ pooled de duas amostras faz, e qual a correção quando ele falha?

Solução:

Ele pressupõe homogeneidade de variância: os dois grupos devem ter variâncias populacionais iguais, para que a variância combinada faça sentido. Quando as variâncias diferem, a correção de Welch é a resposta: ela não combina as variâncias, usa o erro padrão baseado nas variâncias separadas e ajusta os graus de liberdade para baixo, protegendo a taxa de erro do tipo I. Welch é hoje o padrão recomendado mesmo quando a igualdade é plausível.

4. Qual teste não paramétrico substitui o $t$ de duas amostras, e como ele funciona?

Solução:

O teste de Mann e Whitney, também chamado Wilcoxon de soma de postos, compara a ordenação dos dois grupos. Ele não exige normalidade, mas exige observações independentes e uma hipótese nula bem definida. Em geral, mede tendência estocástica, não igualdade de médias. A leitura como diferença de medianas ou deslocamento de localização requer distribuições de forma semelhante.

5. Qual o compromisso entre um teste paramétrico e a sua alternativa não paramétrica?

Solução:

Não há uma ordem universal de poder. Sob o modelo normal, o teste $t$ costuma ser eficiente para a diferença de médias. Métodos por postos podem ser mais eficientes em algumas distribuições de cauda pesada, mas testam outro aspecto da distribuição. Permutação é exata ou aproximadamente válida quando há permutabilidade e usa a estatística escolhida. A comparação correta começa pelo estimando e pelas hipóteses, não pelo rótulo paramétrico ou não paramétrico.

6. Testes paramétricos em C++ e no Colab

Implementamos o teste $t$ de duas amostras e o qui-quadrado de independência com p-valores calculados, sem tabelas. O p-valor do $t$ vem da função beta incompleta regularizada $I_x(a,b)$, e o do qui-quadrado, da função gama incompleta regularizada $Q(a,x)$, ambas implementadas por frações contínuas clássicas. O programa reproduz os exemplos das Seções 2 e 4. Compile com g++ -std=c++23 -O2 -Wall -Wextra -Wconversion -Wshadow -pedantic testes.cpp -o testes.

#include <cmath>
#include <iomanip>
#include <iostream>
#include <span>
#include <vector>

// Regularized incomplete beta I_x(a,b), by Lentz continued fraction.
double betacf(double a, double b, double x) {
    const double tiny = 1e-300;
    const double qab = a + b, qap = a + 1.0, qam = a - 1.0;
    double c = 1.0, d = 1.0 - qab * x / qap;
    if (std::abs(d) < tiny) d = tiny;
    d = 1.0 / d;
    double h = d;
    for (int m = 1; m < 300; ++m) {
        const double m2 = 2.0 * m;
        double aa = m * (b - m) * x / ((qam + m2) * (a + m2));
        d = 1.0 + aa * d; if (std::abs(d) < tiny) d = tiny;
        c = 1.0 + aa / c; if (std::abs(c) < tiny) c = tiny;
        d = 1.0 / d; h *= d * c;
        aa = -(a + m) * (qab + m) * x / ((a + m2) * (qap + m2));
        d = 1.0 + aa * d; if (std::abs(d) < tiny) d = tiny;
        c = 1.0 + aa / c; if (std::abs(c) < tiny) c = tiny;
        d = 1.0 / d;
        const double del = d * c; h *= del;
        if (std::abs(del - 1.0) < 1e-15) break;
    }
    return h;
}

double betai(double a, double b, double x) {
    if (x <= 0.0) return 0.0;
    if (x >= 1.0) return 1.0;
    const double bt = std::exp(std::lgamma(a + b) - std::lgamma(a) - std::lgamma(b)
                               + a * std::log(x) + b * std::log1p(-x));
    return x < (a + 1.0) / (a + b + 2.0)
        ? bt * betacf(a, b, x) / a
        : 1.0 - bt * betacf(b, a, 1.0 - x) / b;
}

// Regularized upper incomplete gamma Q(a,x), by series or continued fraction.
double gammq(double a, double x) {
    const double gln = std::lgamma(a);
    if (x < a + 1.0) {
        double ap = a, sum = 1.0 / a, del = sum;
        for (int i = 0; i < 300; ++i) {
            ap += 1.0; del *= x / ap; sum += del;
            if (std::abs(del) < std::abs(sum) * 1e-15) break;
        }
        return 1.0 - sum * std::exp(-x + a * std::log(x) - gln);
    }
    const double tiny = 1e-300;
    double b = x + 1.0 - a, c = 1.0 / tiny, d = 1.0 / b, h = d;
    for (int i = 1; i < 300; ++i) {
        const double an = -1.0 * i * (i - a);
        b += 2.0;
        d = an * d + b; if (std::abs(d) < tiny) d = tiny;
        c = b + an / c; if (std::abs(c) < tiny) c = tiny;
        d = 1.0 / d;
        const double del = d * c; h *= del;
        if (std::abs(del - 1.0) < 1e-15) break;
    }
    return std::exp(-x + a * std::log(x) - gln) * h;
}

struct Amostra { double media; double var; std::size_t n; };
Amostra resume(std::span<const double> v) {
    double s = 0.0;
    for (const double x : v) s += x;
    const double m = s / static_cast<double>(v.size());
    double sq = 0.0;
    for (const double x : v) { const double d = x - m; sq += d * d; }
    return { m, sq / static_cast<double>(v.size() - 1), v.size() };
}

int main() {
    std::cout << std::fixed << std::setprecision(4);

    // Teste t de duas amostras, variancias iguais (pooled).
    const std::vector<double> g1 = {70, 75, 80, 68, 77};
    const std::vector<double> g2 = {66, 71, 76, 64, 73};
    const Amostra a = resume(g1), b = resume(g2);
    const double nA = static_cast<double>(a.n), nB = static_cast<double>(b.n);
    const double gl = nA + nB - 2.0;
    const double sp2 = ((nA - 1.0) * a.var + (nB - 1.0) * b.var) / gl;
    const double t = (a.media - b.media) / std::sqrt(sp2 * (1.0 / nA + 1.0 / nB));
    const double p_t = betai(gl / 2.0, 0.5, gl / (gl + t * t));
    std::cout << "t de duas amostras: t = " << t << ", gl = " << gl
              << ", p = " << p_t << '\n';

    // Qui-quadrado de independencia em uma tabela 2x3.
    const int tab[2][3] = { {30, 20, 10}, {15, 25, 20} };
    double linha[2] = {0, 0}, coluna[3] = {0, 0, 0}, total = 0.0;
    for (int i = 0; i < 2; ++i)
        for (int j = 0; j < 3; ++j) { linha[i] += tab[i][j]; coluna[j] += tab[i][j]; total += tab[i][j]; }
    double chi2 = 0.0;
    for (int i = 0; i < 2; ++i)
        for (int j = 0; j < 3; ++j) {
            const double esp = linha[i] * coluna[j] / total;
            const double dif = tab[i][j] - esp;
            chi2 += dif * dif / esp;
        }
    const double gl_chi = (2 - 1) * (3 - 1);
    const double p_chi = gammq(gl_chi / 2.0, chi2 / 2.0);
    std::cout << "qui-quadrado independencia: chi2 = " << chi2
              << ", gl = " << gl_chi << ", p = " << p_chi << '\n';
}

A saída é

t de duas amostras: t = 1.2778, gl = 8.0000, p = 0.2372
qui-quadrado independencia: chi2 = 8.8889, gl = 2.0000, p = 0.0117

Os dois p-valores reproduzem exatamente os das Seções 2 e 4, calculados aqui por funções especiais implementadas do zero, não por tabelas. No Colab, esses testes são chamadas únicas de scipy.stats: ttest_ind(g1, g2) para o $t$ de duas amostras (com equal_var=False para Welch), ttest_1samp e ttest_rel para os testes de uma amostra e pareado, proportions_ztest do statsmodels para proporções, e chi2_contingency para o qui-quadrado de independência, que devolve estatística, p-valor, graus de liberdade e a tabela de esperados de uma vez.

6.1 Exercícios da Seção 6

1. Por que o p-valor do teste $t$ é calculado pela função beta incompleta, e não pela normal?

Solução:

A distribuição $t$ de Student não é a normal; a sua função de distribuição acumulada se expressa exatamente pela função beta incompleta regularizada $I_x(a,b)$, com $a=\text{gl}/2$, $b=1/2$ e $x=\text{gl}/(\text{gl}+t^2)$. Usar a normal daria o p-valor do teste $z$, incorreto para amostras pequenas por ignorar as caudas mais pesadas da $t$. A beta incompleta captura essas caudas exatamente, para qualquer grau de liberdade.

2. Por que gammq usa série para $x<a+1$ e fração contínua caso contrário?

Solução:

A representação em série da função gama incompleta converge rápido quando $x$ é pequeno em relação a $a$, mas lentamente quando $x$ é grande; a fração contínua tem o comportamento oposto. Escolher a série para $x<a+1$ e a fração contínua para $x\ge a+1$ usa cada representação na região em que converge depressa, garantindo precisão e poucas iterações em todo o domínio. É a estratégia clássica de avaliação da função.

3. Qual a complexidade de tempo do teste $t$ implementado?

Solução:

Resumir cada grupo é $O(n_1+n_2)$, duas passagens lineares para média e variância. As frações contínuas de betai convergem em um número fixo e pequeno de iterações, independente do tamanho da amostra, portanto $O(1)$. O custo total é dominado pelo resumo dos dados, $O(n_1+n_2)$, e o espaço é $O(1)$ além da entrada, graças ao std::span.

4. Como o programa calcularia o teste de aderência do dado da Seção 4?

Solução:

Bastaria somar $(O_i-E_i)^2/E_i$ sobre as seis faces, com $E_i=10$, obtendo $\chi^2=5{,}0$, e chamar gammq(5.0/2.0, 5.0/2.0) para o p-valor com $k-1=5$ graus de liberdade, resultando $\approx0{,}416$. A mesma função gammq serve à aderência e à independência; muda apenas o cálculo da estatística e dos graus de liberdade que entram nela.

5. Por que estas funções especiais são preferíveis a interpolar tabelas impressas?

Solução:

As tabelas dão valores críticos apenas para níveis e graus de liberdade selecionados e não fornecem um p-valor detalhado. Funções especiais calculam uma aproximação numérica controlada para uma faixa muito maior de entradas, permitindo reportar o p-valor e aplicar procedimentos posteriores. Exato descreve a distribuição teórica; a avaliação em ponto flutuante ainda tem erro numérico.

7. Um laboratório para o teste t

O teste $t$ de duas amostras é governado por três grandezas, as médias, os desvios e os tamanhos dos grupos, e ver a estatística e a região de rejeição responderem a elas fixa a intuição. O laboratório abaixo deixa a leitora ajustar médias, desvios e tamanhos de dois grupos e desenha a distribuição $t$ sob a nula, com a região de rejeição sombreada, a estatística $t$ observada marcada e os graus de liberdade e o p-valor exibidos. Presets reproduzem o exemplo do texto e casos de fronteira.

O que o laboratório torna tátil é a interação das três alavancas. Afastar as médias empurra a estatística $t$ para a cauda e reduz o p-valor; aumentar os desvios infla o erro padrão e traz a estatística de volta ao miolo; aumentar os tamanhos estreita a incerteza e aumenta os graus de liberdade, afinando a distribuição $t$ rumo à normal. Ao mover essas alavancas, a leitora reconstrói com os olhos a fórmula $t=(\bar{x}_1-\bar{x}_2)/\sqrt{s_p^2(1/n_1+1/n_2)}$ e entende por que efeito grande e amostra pequena, como no exemplo do texto, podem não bastar para rejeitar a nula.

7.1 Exercícios da Seção 7

1. No preset do texto, por que o p-valor fica acima de $0{,}05$ apesar da diferença de médias?

Solução:

As médias diferem em $4$ (de $70$ para $74$), mas com desvio combinado $\approx4{,}95$ e apenas cinco observações por grupo, o erro padrão da diferença é grande, $\sqrt{24{,}5(2/5)}\approx3{,}13$, e a estatística $t\approx1{,}278$ fica no miolo da distribuição. O p-valor $\approx0{,}237$ reflete o poder insuficiente: a amostra é pequena demais para distinguir um efeito real do acaso.

2. Aumente os tamanhos dos grupos mantendo médias e desvios. O que acontece?

Solução:

O erro padrão da diferença encolhe com $1/\sqrt{n}$, então a estatística $t$ cresce e migra para a cauda, reduzindo o p-valor; simultaneamente, os graus de liberdade aumentam e a distribuição $t$ se aproxima da normal, estreitando as caudas. A mesma diferença de médias, com grupos maiores, passa de não significativa a significativa. É a dependência do poder no tamanho de amostra vista no gráfico.

3. Aumente os desvios dos grupos mantendo médias e tamanhos. Por que o p-valor sobe?

Solução:

Desvios maiores inflam a variância combinada e, com ela, o erro padrão da diferença. A estatística $t$, que é a diferença de médias dividida por esse erro padrão, encolhe e volta ao miolo da distribuição nula, elevando o p-valor. Mais ruído nos dados esconde o mesmo sinal: a significância depende não só da diferença, mas da sua razão com a variabilidade.

4. Aproxime as médias até o p-valor cruzar $0{,}05$. O que a posição da estatística mostra?

Solução:

Conforme as médias se aproximam, a estatística $t$ desliza da cauda para o miolo, e no ponto em que o p-valor cruza $0{,}05$ a estatística coincide com o valor crítico $t_{\text{gl},\,0{,}975}$, a borda da região de rejeição sombreada. A leitora vê que significativo corresponde geometricamente à estatística cair na região sombreada, e que a fronteira $0{,}05$ é uma linha específica nessa distribuição, não um marco absoluto.

5. Como o laboratório ilustra a convergência da distribuição $t$ para a normal?

Solução:

Ao aumentar os tamanhos dos grupos, os graus de liberdade crescem e a distribuição $t$ desenhada estreita as caudas, aproximando-se visivelmente do sino da normal padrão. Para grupos pequenos, a $t$ é nitidamente mais espalhada, com região de rejeição mais afastada do centro; para grupos grandes, ela é quase indistinguível da normal. O laboratório mostra a mesma convergência que a Seção 1 descreveu com os valores críticos.

8. Conclusão

Este artigo apresentou a família paramétrica de testes, a alternativa de fórmula fechada ao teste de permutação. Fomos do teste $z$, que supõe $\sigma$ conhecido, ao teste $t$, que o estima e paga a incerteza com caudas mais pesadas; percorremos os testes $t$ de uma amostra, duas amostras e pareado, vendo como o pareamento compra poder; construímos o teste $z$ de proporções e revelamos a sua identidade $z^2=\chi^2$ com o qui-quadrado; e usamos o qui-quadrado para aderência e independência, sempre atentos ao limite das frequências esperadas. A seção de pressupostos amarrou tudo: cada teste vale sob condições, e verificá-las é parte de aplicá-lo, com o não paramétrico e a permutação como redes de segurança.

O fio a levar adiante nasce de uma tentação perigosa. Cada teste deste artigo responde a uma pergunta. Mas a ciência de dados raramente faz uma pergunta só: compara muitos grupos, testa muitas variáveis, roda muitas versões. E quem faz muitos testes aos mesmos dados acaba encontrando significâncias que são puro acaso, uma para cada vinte perguntas a $\alpha=0{,}05$. O próximo artigo enfrenta esse problema da testagem múltipla, com as correções que controlam a inflação do erro, e apresenta a análise de variância, que compara vários grupos de uma vez sem cair na armadilha das comparações repetidas.

Acrônimos e Abreviações neste artigo

A seguir está a lista de todos os acrônimos e abreviações identificados no texto, organizados em ordem alfabética com o termo original em inglês e a tradução para o português:

Acrônimo / Abreviação Definição em Inglês Tradução em Português
BLAS Basic Linear Algebra Subprograms Subprogramas Básicos de Álgebra Linear
CPU / CPUs Central Processing Unit Unidade Central de Processamento
FLOPs Floating Point Operations Operações de Ponto Flutuante
FP32 32-bit Floating Point Ponto Flutuante de 32 bits
GEMM General Matrix Multiply Multiplicação Geral de Matrizes
GPU Graphics Processing Unit Unidade de Processamento Gráfico
IA Artificial Intelligence Inteligência Artificial
I-JEPA Image Joint-Embedding Predictive Architecture Arquitetura Preditiva de Incorporação Conjunta de Imagem
JEPA Joint-Embedding Predictive Architecture Arquitetura Preditiva de Incorporação Conjunta
KiB Kibibyte Kibibyte
MAE Masked Autoencoder Autocodificador Mascarado
MSE Mean Squared Error Erro Quadrático Médio
MSVC Microsoft Visual C++ Microsoft Visual C++
PCA Principal Component Analysis Análise de Componentes Principais
SIMD Single Instruction, Multiple Data Instrução Única, Múltiplos Dados
SimCLR Simple Framework for Contrastive Learning of Visual Representations Estrutura Simples para Aprendizado Contrastivo de Representações Visuais

Referências

GIOLO, S. R. Introdução à análise de dados categóricos com aplicações. São Paulo: Blucher, 2017.

KAIST. DS 501 Statistical Inference for Data Science. Statistical Data Science, KAIST. Disponível em: https://statds.kaist.ac.kr/courses. Acesso em: 23 jul. 2026.

LARSON, R.; FARBER, B. Estatística aplicada. 6. ed. São Paulo: Pearson, 2015.

SEMINAR FOR STATISTICS, ETH ZÜRICH. On Hypothesis Testing. Notas de aula de Applied Statistical Regression. Disponível em: https://stat.ethz.ch/lectures/. Acesso em: 23 jul. 2026.

WALPOLE, R. E. et al. Probabilidade e estatística: para engenharia e ciências. 8. ed. São Paulo: Pearson, 2008.

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