Variáveis Aleatórias e Distribuições de Probabilidade

por Frank de Alcantara em 16/08/2026

Variáveis Aleatórias e Distribuições de Probabilidade

O artigo anterior construiu a probabilidade dos axiomas ao teorema de Bayes, mas sempre falando de eventos isolados: sair um número par, testar positivo, extrair duas bolas vermelhas. A ciência de dados raramente pensa em um evento de cada vez. Ela pensa em variáveis, colunas inteiras de números que resultam do acaso, e precisa de um objeto que atribua uma probabilidade a cada valor possível dessas colunas. Esse objeto é a variável aleatória, e o mapa completo do que ela pode fazer é a sua distribuição.

Este artigo levanta esse mapa. Começamos definindo a variável aleatória, a sua esperança e a sua variância, os dois números que resumem uma distribuição inteira do mesmo modo que a média e o desvio padrão resumiram uma amostra nos primeiros artigos. Depois percorremos as distribuições que a prática mais encontra: as de contagem, coroadas pela Binomial e pela Poisson, e as de medida, coroadas pela normal. Fechamos apresentando a família de distribuições, $t$, qui-quadrado e $F$, que a segunda metade da série usará em todo teste de hipótese e em toda regressão. Mantemos o combinado de sempre: exemplos em C++23, laboratórios em Python no Colab e um experimento em JavaScript.

1. Variáveis aleatórias, esperança e variância

Uma variável aleatória é uma função que atribui um número real a cada resultado de um experimento aleatório. Formalmente, se $\Omega$ é o espaço amostral definido no artigo anterior, uma variável aleatória é uma função $X:\Omega\to\mathbb{R}$. O nome é um abuso consagrado: não é uma variável no sentido algébrico nem é aleatória em si; é uma regra determinística que traduz resultados em números, e a aleatoriedade vem do experimento subjacente. Ao lançar dois dados, a soma das faces é uma variável aleatória: a cada um dos $36$ resultados do espaço amostral ela associa um número de $2$ a $12$.

Uma variável aleatória é discreta quando assume valores em um conjunto enumerável, tipicamente inteiros: o número de bugs em um módulo, o número de caras em dez lançamentos, a soma de dois dados. Ela é descrita pela sua função de probabilidade (probability mass function, ou pmf), que a cada valor $x$ atribui $p(x)=P(X=x)$, com $p(x)\ge0$ e $\sum_x p(x)=1$. Uma variável aleatória é contínua quando assume valores em um intervalo de $\mathbb{R}$: um tempo de resposta, uma temperatura, uma altura. Aqui a probabilidade de qualquer valor exato é zero, e a descrição passa a ser a função densidade de probabilidade (probability density function, ou pdf) $f(x)$, com $f(x)\ge0$ e $\int_{-\infty}^{\infty}f(x)\,dx=1$; a probabilidade de um intervalo é a área sob a densidade, $P(a\le X\le b)=\int_a^b f(x)\,dx$. Nos dois casos, a função de distribuição acumulada (cumulative distribution function, ou cdf) $F(x)=P(X\le x)$ dá a probabilidade de ficar até $x$, e é ela que unifica o tratamento de discretas e contínuas.

O primeiro resumo de uma distribuição é a sua esperança, ou valor esperado, o análogo teórico da média amostral. Para uma variável aleatória discreta $X$, denotaremos por $p(x)=P(X=x)$ a probabilidade de cada valor possível $x$. Sua esperança será dada por

\[\operatorname{E}[X]=\sum_x x\,p(x),\]

a média dos valores possíveis ponderada pelas suas probabilidades. Considere uma variável $X$ que assume os valores $0,1,2,3$ com probabilidades $0{,}1$, $0{,}3$, $0{,}4$ e $0{,}2$; usaremos este pequeno exemplo de novo no laboratório da Seção 7. A sua esperança é $\operatorname{E}[X]=0(0{,}1)+1(0{,}3)+2(0{,}4)+3(0{,}2)=1{,}7$. Repare que $1{,}7$ não é um valor que $X$ jamais assume: a esperança é um centro de massa, não uma previsão. Do mesmo modo, a esperança do lançamento de um dado justo é $\operatorname{E}[X]=(1+2+3+4+5+6)/6=3{,}5$, uma face que não existe.

O segundo resumo é a variância, o análogo teórico da variância amostral do segundo artigo. Ela mede a dispersão esperada em torno de $\operatorname{E}[X]$:

\[\operatorname{Var}(X)=\operatorname{E}\!\big[(X-\operatorname{E}[X])^2\big]=\operatorname{E}[X^2]-\operatorname{E}[X]^2,\]

na qual a segunda igualdade, deduzida expandindo o quadrado e usando a linearidade que provaremos nos exercícios, é a fórmula de cálculo mais prática. No exemplo, $\operatorname{E}[X^2]=0^2(0{,}1)+1^2(0{,}3)+2^2(0{,}4)+3^2(0{,}2)=3{,}7$, logo $\operatorname{Var}(X)=3{,}7-1{,}7^2=0{,}81$ e o desvio padrão é $\sqrt{0{,}81}=0{,}9$. Duas propriedades governam quase todos os cálculos adiante e serão demonstradas nos exercícios: a esperança é linear, $\operatorname{E}[aX+b]=a\operatorname{E}[X]+b$, enquanto a variância ignora deslocamentos e escala pelo quadrado, $\operatorname{Var}(aX+b)=a^2\operatorname{Var}(X)$. A assimetria entre as duas, uma linear e a outra quadrática, é a razão pela qual o desvio padrão, e não a variância, vive na mesma unidade dos dados.

1.1 Exercícios da Seção 1

1. Calcule a esperança e a variância de uma variável $X$ com $p(1)=0{,}2$, $p(2)=0{,}5$ e $p(3)=0{,}3$.

Solução: A esperança é $\operatorname{E}[X]=1(0{,}2)+2(0{,}5)+3(0{,}3)=2{,}1$. Para a variância, $\operatorname{E}[X^2]=1(0{,}2)+4(0{,}5)+9(0{,}3)=4{,}9$, logo $\operatorname{Var}(X)=4{,}9-2{,}1^2=4{,}9-4{,}41=0{,}49$ e o desvio padrão é $0{,}7$. Os três pesos somam $1$, como exige a definição de pmf.

2. Mostre que a esperança do lançamento de um dado justo é $3{,}5$ e verifique a sua variância.

Solução: Como cada face tem probabilidade $1/6$, $\operatorname{E}[X]=\frac{1}{6}(1+2+3+4+5+6)=\frac{21}{6}=3{,}5$. Para a variância, $\operatorname{E}[X^2]=\frac{1}{6}(1+4+9+16+25+36)=\frac{91}{6}$, e $\operatorname{Var}(X)=\frac{91}{6}-\left(\frac{7}{2}\right)^2=\frac{91}{6}-\frac{49}{4}=\frac{182-147}{12}=\frac{35}{12}\approx2{,}9167$.

3. Prove a linearidade da esperança: $\operatorname{E}[aX+b]=a\operatorname{E}[X]+b$.

Solução: Por definição, $\operatorname{E}[aX+b]=\sum_x(ax+b)\,p(x)=a\sum_x x\,p(x)+b\sum_x p(x)$. A primeira soma é $\operatorname{E}[X]$; a segunda vale $1$, porque as probabilidades somam $1$. Logo, $\operatorname{E}[aX+b]=a\operatorname{E}[X]+b$. A constante $b$ desloca o centro, e o fator $a$ o escala.

4. Prove que $\operatorname{Var}(aX+b)=a^2\operatorname{Var}(X)$ e interprete cada fator.

Solução: Seja $\mu=\operatorname{E}[X]$. Pela linearidade, $\operatorname{E}[aX+b]=a\mu+b$. Então $\operatorname{Var}(aX+b)=\operatorname{E}!\big[(aX+b-a\mu-b)^2\big]=\operatorname{E}!\big[a^2(X-\mu)^2\big]=a^2\operatorname{Var}(X)$. O deslocamento $b$ cancela, porque somar uma constante move todos os valores igualmente sem alterar a dispersão; o fator $a$ entra ao quadrado porque a variância mede desvios ao quadrado.

5. Deduza a fórmula de cálculo $\operatorname{Var}(X)=\operatorname{E}[X^2]-\operatorname{E}[X]^2$ e aplique-a ao exemplo do texto.

Solução: Expandindo o quadrado, $\operatorname{Var}(X)=\operatorname{E}[(X-\mu)^2]=\operatorname{E}[X^2-2\mu X+\mu^2]$. Pela linearidade, isso é $\operatorname{E}[X^2]-2\mu\operatorname{E}[X]+\mu^2=\operatorname{E}[X^2]-2\mu^2+\mu^2=\operatorname{E}[X^2]-\mu^2$. No exemplo com valores $0,1,2,3$, tínhamos $\operatorname{E}[X^2]=3{,}7$ e $\mu=1{,}7$, logo $\operatorname{Var}(X)=3{,}7-2{,}89=0{,}81$, coincidindo com o cálculo direto.

2. Distribuições discretas

Poucas distribuições discretas cobrem a maioria dos fenômenos de contagem, e cada uma modela uma situação distinta. A mais simples é a Bernoulli, que descreve um único experimento com dois resultados, sucesso e fracasso. Uma variável $X\sim\text{Bernoulli}(p)$ vale $1$ com probabilidade $p$ e $0$ com probabilidade $1-p$. A sua esperança é $\operatorname{E}[X]=1\cdot p+0\cdot(1-p)=p$ e a sua variância é $\operatorname{Var}(X)=p(1-p)$; para $p=0{,}3$, a variância vale $0{,}21$. É a Bernoulli que formaliza a coluna binária remoto da nossa equipe: cada pessoa é um ensaio, e a proporção de $1$ que calculamos no artigo anterior é a estimativa de $p$.

Somar ensaios de Bernoulli independentes e idênticos produz a Binomial. Se realizamos $n$ ensaios, cada um com probabilidade de sucesso $p$, o número total de sucessos $X\sim\text{Binomial}(n,p)$ tem pmf. Para cada quantidade possível $k$ de sucessos, com $k\in{0,1,\ldots,n}$, essa probabilidade será dada por

\[P(X=k)=\binom{n}{k}p^k(1-p)^{n-k},\qquad k=0,1,\ldots,n,\]

na qual $\binom{n}{k}$, definido na Seção 5 do artigo anterior, conta de quantas maneiras os $k$ sucessos podem ocupar as $n$ posições, e $p^k(1-p)^{n-k}$ é a probabilidade de uma sequência específica com $k$ sucessos. Para $n=10$ e $p=0{,}3$, a probabilidade de exatamente três sucessos é $\binom{10}{3}0{,}3^3\,0{,}7^7\approx0{,}2668$. Como a Binomial é uma soma de $n$ Bernoullis independentes, a linearidade dá $\operatorname{E}[X]=np$ e a independência dá $\operatorname{Var}(X)=np(1-p)$; para $n=10$ e $p=0{,}3$, isso é $\operatorname{E}[X]=3$ e $\operatorname{Var}(X)=2{,}1$.

Quando os eventos são raros mas as oportunidades são muitas, a Binomial converge para a Poisson, a distribuição das contagens em um intervalo fixo de tempo ou espaço: requisições por segundo, defeitos por metro de cabo, e-mails por hora. O parâmetro $\lambda>0$ representa a contagem média esperada nesse intervalo. Uma variável $X\sim\text{Poisson}(\lambda)$ tem pmf. Para cada contagem possível $k\in{0,1,2,\ldots}$, essa probabilidade será dada por

\[P(X=k)=\frac{e^{-\lambda}\lambda^k}{k!},\qquad k=0,1,2,\ldots,\]

na qual $\lambda>0$ é simultaneamente a esperança e a variância. Essa igualdade é uma restrição estrutural da família Poisson, embora outras distribuições possam ter média e variância numericamente iguais em parâmetros particulares. Em dados de contagem, variância muito maior que a média sugere superdispersão em relação ao modelo Poisson; variância menor sugere subdispersão. A comparação é um diagnóstico inicial, não um teste suficiente, pois heterogeneidade, dependência e excesso de zeros também precisam ser investigados. Para $\lambda=2$, temos $P(X=0)=e^{-2}\approx0{,}1353$, $P(X=1)=2e^{-2}\approx0{,}2707$ e $P(X=2)=2e^{-2}\approx0{,}2707$. Quando $n$ é grande e $p$ pequeno com $np=\lambda$ moderado, $\text{Binomial}(n,p)\approx\text{Poisson}(np)$. Para $n=1000$ e $p=0{,}002$, as probabilidades de duas ocorrências são aproximadamente $0{,}2709$ e $0{,}2707$.

Uma quarta distribuição, a geométrica, conta o número de ensaios de Bernoulli até o primeiro sucesso: $P(X=k)=(1-p)^{k-1}p$ para $k=1,2,\ldots$. A sua esperança é $\operatorname{E}[X]=1/p$, um resultado de rara elegância: se a chance de sucesso é $1/4$, esperam-se em média quatro tentativas, e a sua variância é $(1-p)/p^2$, que para $p=0{,}25$ vale $12$. A geométrica é a distribuição de quanto ainda vou esperar, e a sua ausência de memória, que a atenta leitora explorará nos exercícios, é uma propriedade que reaparece em modelos de confiabilidade e de filas.

2.1 Exercícios da Seção 2

1. Calcule $P(X=3)$ para $X\sim\text{Binomial}(10,\,0{,}3)$.

Solução: Aplicando a pmf, $P(X=3)=\binom{10}{3}0{,}3^3\,0{,}7^7$. O coeficiente é $\binom{10}{3}=120$, $0{,}3^3=0{,}027$ e $0{,}7^7\approx0{,}0823543$. O produto é $120\times0{,}027\times0{,}0823543\approx0{,}2668$. É o valor mais provável da distribuição, coerente com $\operatorname{E}[X]=np=3$.

2. Deduza $\operatorname{E}[X]=np$ e $\operatorname{Var}(X)=np(1-p)$ para a Binomial usando a decomposição em Bernoullis.

Solução: Escreva $X=\sum_{i=1}^{n}Y_i$, com cada $Y_i\sim\text{Bernoulli}(p)$ independente. Pela linearidade da esperança, $\operatorname{E}[X]=\sum_i\operatorname{E}[Y_i]=np$. Como as $Y_i$ são independentes, a variância da soma é a soma das variâncias, $\operatorname{Var}(X)=\sum_i\operatorname{Var}(Y_i)=n\,p(1-p)$. A independência é essencial no segundo passo; sem ela, apareceriam termos de covariância.

3. Para $X\sim\text{Poisson}(2)$, calcule $P(X\ge1)$.

Solução: Pelo complemento, $P(X\ge1)=1-P(X=0)=1-e^{-2}$. Como $e^{-2}\approx0{,}1353$, temos $P(X\ge1)\approx0{,}8647$. O complemento evita somar a série infinita $P(X=1)+P(X=2)+\cdots$, exatamente a estratégia da regra do complemento do artigo anterior.

4. Verifique numericamente a aproximação da Binomial pela Poisson com $n=1000$, $p=0{,}002$ e $k=2$.

Solução: Aqui $\lambda=np=2$. A Poisson dá $P(X=2)=e^{-2}2^2/2!=2e^{-2}\approx0{,}2707$. A Binomial exata dá $\binom{1000}{2}0{,}002^2\,0{,}998^{998}\approx0{,}2709$. A diferença aparece só na terceira casa decimal, confirmando que a Poisson é uma aproximação excelente para eventos raros em muitas oportunidades.

5. Mostre que a distribuição geométrica não tem memória: $P(X>s+t\mid X>s)=P(X>t)$.

Solução: Para a geométrica, $P(X>m)=(1-p)^m$, pois ultrapassar $m$ ensaios significa falhar os primeiros $m$. Então $P(X>s+t\mid X>s)=\dfrac{P(X>s+t)}{P(X>s)}=\dfrac{(1-p)^{s+t}}{(1-p)^s}=(1-p)^t=P(X>t)$. Ter esperado $s$ tentativas sem sucesso não altera a distribuição do que falta esperar; o processo esquece o passado.

3. Distribuições contínuas e a normal

As distribuições contínuas descrevem medidas, e a mais simples delas é a uniforme. Uma variável $X\sim\text{Uniforme}(a,b)$ tem densidade constante $f(x)=1/(b-a)$ dentro do intervalo $[a,b]$ e zero fora dele; toda subfaixa de igual largura tem igual probabilidade. A sua esperança é o ponto médio $\operatorname{E}[X]=(a+b)/2$ e a sua variância é $\operatorname{Var}(X)=(b-a)^2/12$; para $\text{Uniforme}(0,10)$, a esperança é $5$ e a variância é $100/12\approx8{,}333$. A uniforme é o gerador primário de todo o restante: é dela que partem os algoritmos que produzem amostras de qualquer outra distribuição, como o código da Seção 6 vai usar.

A distribuição contínua central da estatística é a normal, ou gaussiana. Nela, $\mu$ representa a esperança e $\sigma^2>0$ a variância. Uma variável $X\sim\mathcal{N}(\mu,\sigma^2)$ tem densidade

\[f(x)=\frac{1}{\sigma\sqrt{2\pi}}\exp\!\left(-\frac{(x-\mu)^2}{2\sigma^2}\right),\]

na qual $\mu$ é a esperança e $\sigma^2$ a variância, os dois parâmetros da família normal. A sua onipresença se relaciona ao teorema central do limite, que o sétimo artigo apresentará com suas hipóteses. Em uma versão clássica, somas padronizadas de contribuições independentes e identicamente distribuídas, com variância finita, convergem em distribuição para a normal. Dependência forte, caudas sem variância finita ou uma parcela dominante podem impedir essa aproximação.

Toda normal se reduz a uma só pela padronização. Subtraindo a média e dividindo pelo desvio, o escore $z=(x-\mu)/\sigma$ transforma $X\sim\mathcal{N}(\mu,\sigma^2)$ na normal padrão $Z\sim\mathcal{N}(0,1)$, e $z$ mede em quantos desvios padrão o valor $x$ está do centro. Tome um serviço cujo tempo de resposta seja $X\sim\mathcal{N}(100,15^2)$ milissegundos. Um tempo de $130$ ms corresponde a $z=(130-100)/15=2$: está a dois desvios acima da média. A probabilidade de o tempo cair entre $90$ e $120$ ms é a área da densidade nesse intervalo, calculada padronizando os extremos, $z_1=(90-100)/15\approx-0{,}667$ e $z_2=(120-100)/15\approx1{,}333$, e consultando a cdf da normal padrão: $P(90<X<120)=\Phi(1{,}333)-\Phi(-0{,}667)\approx0{,}6563$.

A Figura 1 desenha essa normal com a área calculada acima e, abaixo do eixo, as faixas da regra empírica com os valores exatos. A comparação entre a faixa de $2\sigma$ e a de $1{,}96\sigma$ vale um olhar demorado: elas são quase iguais, e a diferença entre $95{,}45\%$ e $95{,}00\%$ é o motivo pelo qual os intervalos de confiança do oitavo artigo usarão $1{,}96$ e não $2$.

Curva de densidade normal com média 100 milissegundos e desvio padrão 15, com a região entre 90 e 120 sombreada e área igual a 0,6563. Abaixo do eixo, quatro faixas mostram que mu mais ou menos um sigma contém 68,27 por cento, dois sigma contém 95,45 por cento, três sigma contém 99,73 por cento e 1,96 sigma contém exatamente 95,00 por cento. Figura 1: A área sombreada é $\Phi(1{,}333) - \Phi(-0{,}667) \approx 0{,}6563$, obtida apenas padronizando os extremos. Os números da regra empírica são $68{,}27$, $95{,}45$ e $99{,}73$; os $95$ redondos exigem $1{,}96$ desvios.

Da padronização nasce a regra empírica, o atalho que todo cientista de dados carrega na cabeça: em uma normal, aproximadamente $68{,}27\%$ da massa cai dentro de $\mu\pm\sigma$, $95{,}45\%$ dentro de $\mu\pm2\sigma$ e $99{,}73\%$ dentro de $\mu\pm3\sigma$. Os números usuais $68$–$95$–$99{,}7$ são estes, arredondados. Eles explicam por que um valor além de três desvios é notícia: sob normalidade, menos de $0{,}3\%$ dos dados chegam lá. E a normal fecha-se sob soma: se $X_1\sim\mathcal{N}(\mu_1,\sigma_1^2)$ e $X_2\sim\mathcal{N}(\mu_2,\sigma_2^2)$ são independentes, então $X_1+X_2\sim\mathcal{N}(\mu_1+\mu_2,\,\sigma_1^2+\sigma_2^2)$; as médias somam e as variâncias somam, nunca os desvios. Somar $\mathcal{N}(1,2^2)$ e $\mathcal{N}(3,4^2)$ produz $\mathcal{N}(4,20)$, com desvio padrão $\sqrt{20}\approx4{,}47$, não $2+4=6$.

3.1 Exercícios da Seção 3

1. Padronize o valor $x=130$ de uma $\mathcal{N}(100,15^2)$ e interprete o resultado.

Solução: O escore é $z=(130-100)/15=30/15=2$. O valor $130$ está a exatamente dois desvios padrão acima da média. Pela regra empírica, valores tão ou mais extremos que $2\sigma$ em qualquer direção somam cerca de $4{,}55\%$ da massa; só na cauda superior, cerca de $2{,}28\%$.

2. Calcule $P(90<X<120)$ para $X\sim\mathcal{N}(100,15^2)$.

Solução: Padronizando, $z_1=(90-100)/15=-2/3\approx-0{,}667$ e $z_2=(120-100)/15=4/3\approx1{,}333$. A probabilidade é $\Phi(1{,}333)-\Phi(-0{,}667)$. Consultando a cdf padrão, $\Phi(1{,}333)\approx0{,}9088$ e $\Phi(-0{,}667)\approx0{,}2525$, cuja diferença é $\approx0{,}6563$. Portanto, cerca de $65{,}6\%$ dos tempos caem nessa faixa.

3. Que fração de uma normal está dentro de $\mu\pm2\sigma$?

Solução: É $\Phi(2)-\Phi(-2)$. Como $\Phi(2)\approx0{,}9772$ e, por simetria, $\Phi(-2)=1-\Phi(2)\approx0{,}0228$, a diferença é $\approx0{,}9545$, ou $95{,}45\%$. Este é o $95$ da regra empírica; o valor exato para $95\%$ redondos usa $1{,}96\sigma$, não $2\sigma$, distinção que voltará nos intervalos de confiança do oitavo artigo.

4. Encontre o percentil $90$ de $X\sim\mathcal{N}(100,15^2)$.

Solução: O percentil $90$ da normal padrão é o valor $z_{0{,}90}$ com $\Phi(z_{0{,}90})=0{,}90$, que vale $\approx1{,}2816$. Desfazendo a padronização, $x=\mu+z_{0{,}90}\,\sigma=100+1{,}2816\times15\approx119{,}22$. Portanto, $90\%$ dos tempos de resposta ficam abaixo de aproximadamente $119{,}2$ ms.

5. Mostre que a soma de duas normais independentes tem variâncias somadas e aplique a $\mathcal{N}(1,2^2)+\mathcal{N}(3,4^2)$.

Solução: Para variáveis independentes, a variância da soma é a soma das variâncias, $\operatorname{Var}(X_1+X_2)=\operatorname{Var}(X_1)+\operatorname{Var}(X_2)$, resultado geral que não depende de normalidade; a normalidade garante, adicionalmente, que a soma continua normal. Aqui, $\mu=1+3=4$ e $\sigma^2=2^2+4^2=4+16=20$, logo a soma é $\mathcal{N}(4,20)$ com desvio $\sqrt{20}\approx4{,}47$. Somar os desvios, $2+4=6$, seria o erro comum; somam-se as variâncias.

4. Verificando normalidade

Assumir normalidade é conveniente, e por isso perigoso: muitos métodos da segunda metade da série a pressupõem, e usá-los sobre dados que não são normais produz conclusões erradas com aparência de rigor. Precisamos, então, de uma ferramenta que confronte a hipótese de normalidade com os dados. A mais direta é o gráfico quantil-quantil (QQ-plot). A ideia é comparar os quantis empíricos da amostra, definidos no terceiro artigo, com os quantis teóricos que uma normal produziria. Ordenam-se os dados, associa-se a cada observação de posto $i$ o quantil teórico correspondente à posição $(i-0{,}5)/n$ da normal padrão, e desenha-se um ponto por par. Se os dados forem aproximadamente normais, os pontos caem sobre uma reta; desvios sistemáticos da reta denunciam a forma da não normalidade.

A leitura do QQ-plot é um vocabulário que vale aprender. Quando os pontos das duas pontas se afastam da reta para cima à direita e para baixo à esquerda, formando um S invertido, a distribuição tem caudas pesadas (heavy-tailed): produz valores extremos com frequência maior que a normal. Quando as pontas se dobram na direção oposta, as caudas são leves. Uma curvatura em apenas uma das pontas indica assimetria: uma cauda longa à direita, discutida no terceiro artigo, encurva a ponta superior para cima. O QQ-plot não dá um número, dá um diagnóstico visual, e a sua honestidade é justamente essa: em vez de resumir a normalidade em uma estatística única, ele mostra onde e como a suposição falha.

A Figura 2 traz esse vocabulário em três exemplos, cada um com sessenta observações. Vale comparar as pontas: no painel do meio as duas caudas se afastam da reta em direções opostas, formando um S invertido; no da direita apenas a superior encurva.

Três gráficos quantil-quantil contra a normal, com sessenta observações cada. No primeiro, uma amostra normal cujos pontos caem sobre a reta de referência. No segundo, uma amostra t de Student com três graus de liberdade, cujos pontos formam um S invertido, sinal de caudas pesadas nas duas pontas. No terceiro, uma amostra lognormal em que apenas a ponta superior encurva para cima, sinal de assimetria à direita. Figura 2: O QQ-plot não devolve um número, devolve o lugar e o modo pelos quais a normalidade falha. Caudas pesadas afastam as duas pontas da reta; assimetria à direita encurva apenas a superior.

As distribuições de cauda longa merecem atenção especial em ciência de dados porque são a regra, não a exceção, em dados de rede, de finanças e de tráfego. Tempos de resposta, tamanhos de arquivos e receitas por cliente costumam ter caudas muito mais pesadas que a normal, o que faz da média uma medida traiçoeira e do desvio padrão uma promessa vazia: sob cauda suficientemente pesada, a variância teórica pode nem existir, um caso que o sétimo artigo retomará ao discutir os limites do teorema central do limite. Reconhecer uma cauda longa em um QQ-plot antes de aplicar um método que supõe normalidade é o tipo de precaução que separa a análise cuidadosa da receita decorada.

4.1 Exercícios da Seção 4

1. Explique por que o QQ-plot usa a posição $(i-0{,}5)/n$ em vez de $i/n$ para o quantil teórico.

Solução: Usar $i/n$ atribuiria à maior observação a posição $1$, cujo quantil normal é $+\infty$, impossível de plotar. A correção de continuidade $(i-0{,}5)/n$ espalha as $n$ observações simetricamente dentro de $(0,1)$, evitando os extremos $0$ e $1$ e tratando as duas caudas de forma equilibrada. Outras convenções, como $(i-0{,}375)/(n+0{,}25)$, refinam o mesmo ajuste.

2. Em um QQ-plot contra a normal, os pontos formam um S invertido, subindo acima da reta à direita e caindo abaixo à esquerda. Que forma tem a distribuição?

Solução: As duas pontas se afastam da reta na direção dos extremos, o que significa que os quantis empíricos extremos são mais afastados do centro que os teóricos: a amostra produz valores mais extremos que uma normal em ambas as caudas. A distribuição tem caudas pesadas, como a $t$ de Student com poucos graus de liberdade, que a Seção 5 apresenta.

3. Um QQ-plot mostra a ponta superior encurvando para cima e a inferior próxima da reta. Diagnostique.

Solução: Só a cauda direita se desvia, esticando-se além da normal, enquanto a esquerda se comporta. Isso é assimetria à direita: uma cauda longa superior, com média puxada acima da mediana, exatamente o padrão dos salários e dos tempos de resposta. A transformação logarítmica é o remédio usual, por comprimir a cauda direita.

4. Por que a média e o desvio padrão são medidas frágeis sob caudas longas?

Solução: Um único valor extremo, cada vez mais provável à medida que a cauda engorda, desloca a média e infla o desvio padrão de forma desproporcional, como o ponto de ruptura $1/n$ da média mostrou no segundo artigo. No limite de caudas muito pesadas, a variância teórica diverge, e o desvio padrão amostral não estabiliza mesmo com muitos dados: estima uma quantidade que não existe.

5. Um QQ-plot com $n=8$ observações parece razoavelmente reto. Podemos concluir normalidade?

Solução: Não. Com oito pontos, a variabilidade amostral é tão grande que mesmo dados claramente não normais produzem QQ-plots aproximadamente retos por acaso, e mesmo dados normais produzem desvios aparentes. O QQ-plot é sugestivo, não conclusivo, e a sua leitura exige tamanhos de amostra que tornem o padrão estável; com poucos dados, ausência de evidência de não normalidade não é evidência de normalidade.

5. As distribuições da inferência

Três distribuições contínuas aparecerão repetidamente na segunda metade da série, sempre a serviço da inferência, e apresentá-las agora poupa surpresas depois. Todas nascem da normal, e conhecer essa ascendência é o que as torna compreensíveis em vez de mágicas.

A distribuição $t$ de Student surge exatamente quando padronizamos a média de uma amostra normal usando o desvio padrão amostral no lugar de $\sigma$. Ela tem a forma de sino da normal, porém com caudas mais pesadas, tanto mais pesadas quanto menor a amostra. O seu parâmetro é o número de graus de liberdade, $n-1$ nesse problema. Com poucos graus de liberdade, a incerteza sobre $s$ é grande; à medida que eles crescem, a $t$ converge para a normal padrão. Para populações não normais, a referência $t$ pode ser aproximada em amostras grandes sob condições adicionais, não uma identidade exata.

A distribuição qui-quadrado (chi-squared), denotada $\chi^2$, é a soma de quadrados de normais padrão independentes: se $Z_1,\ldots,Z_k$ são $\mathcal{N}(0,1)$ independentes, então $\sum_i Z_i^2\sim\chi^2_k$, com $k$ graus de liberdade. Por ser soma de quadrados, ela vive apenas nos reais não negativos e é assimétrica à direita, tanto mais simétrica quanto maior $k$. A sua esperança é exatamente $k$. Ela mede discrepâncias ao quadrado, e é por isso que governa os testes de aderência e de independência em tabelas de contingência do artigo 10, nos quais somamos desvios quadráticos entre frequências observadas e esperadas.

A distribuição $F$ é a razão de duas qui-quadrado independentes, cada uma dividida por seus graus de liberdade: $F=\dfrac{\chi^2{d_1}/d_1}{\chi^2{d_2}/d_2}\sim F_{d_1,d_2}$. Ela tem, portanto, dois parâmetros de graus de liberdade, um do numerador e um do denominador, e também vive nos reais não negativos. Por comparar duas variabilidades, a $F$ é a estatística natural quando queremos saber se a variação entre grupos supera a variação dentro deles, exatamente a pergunta da análise de variância do artigo 11. As três distribuições, $t$, $\chi^2$ e $F$, formam a espinha dorsal da inferência clássica, e todas remontam à normal por operações simples: padronizar, elevar ao quadrado e somar, ou tomar razões.

A Figura 3 reúne todo o parentesco deste artigo em um só grafo. Lida da esquerda para a direita, ela conta duas histórias paralelas: em cima, como as contagens se acumulam de um único ensaio até a Poisson; embaixo, como três operações sobre a normal padrão produzem toda a inferência clássica que a série vai usar.

Grafo de derivação em duas faixas. Na faixa de contagem, a Bernoulli somada em n ensaios produz a Binomial, que com n grande, p pequeno e np igual a lambda aproxima a Poisson, e que contando ensaios até o primeiro sucesso produz a Geométrica. Na faixa de medida e inferência, a Binomial com n grande tende à normal pelo teorema central do limite, a normal padronizada produz Z, a soma de k quadrados de Z produz a qui-quadrado, Z dividido pela raiz de qui-quadrado sobre k produz a t de Student, e a razão de duas qui-quadrado divididas por seus graus de liberdade produz a F. Figura 3: Nenhuma dessas famílias é avulsa. Saber que a $F$ é uma razão de duas $\chi^2$, e que a $\chi^2$ é uma soma de quadrados de $Z$, é o que transforma a tabela decorada em consequência.

5.1 Exercícios da Seção 5

1. Por que a distribuição $t$ tem caudas mais pesadas que a normal?

Solução: A $t$ descreve a estatística $(\bar{X}-\mu)/(s/\sqrt{n})$, na qual o denominador $s$ é ele próprio uma estimativa ruidosa do desvio verdadeiro. Em amostras pequenas, $s$ subestima $\sigma$ com frequência apreciável, produzindo valores da razão maiores do que a normal preveria. Essa incerteza adicional no denominador engorda as caudas; quando $s$ estima $\sigma$ com precisão, em amostras grandes, o efeito desaparece.

2. O que acontece com a distribuição $t$ quando os graus de liberdade tendem ao infinito?

Solução: Com muitos graus de liberdade, a estimativa $s$ converge para $\sigma$, eliminando a incerteza extra que engordava as caudas. A $t$ converge então para a normal padrão $\mathcal{N}(0,1)$. Na prática, acima de cerca de $30$ graus de liberdade a diferença já é pequena, o que explica a regra informal de que amostras grandes permitem usar a normal.

3. Mostre que a esperança de uma $\chi^2_k$ é $k$.

Solução: Por definição, $\chi^2k=\sum{i=1}^{k}Z_i^2$ com $Z_i\sim\mathcal{N}(0,1)$. Pela linearidade da esperança, $\operatorname{E}[\chi^2_k]=\sum_i\operatorname{E}[Z_i^2]$. Para a normal padrão, $\operatorname{E}[Z^2]=\operatorname{Var}(Z)+\operatorname{E}[Z]^2=1+0=1$. Logo, $\operatorname{E}[\chi^2_k]=k$. Cada quadrado de normal padrão contribui, em média, com uma unidade.

4. Por que as distribuições $\chi^2$ e $F$ assumem apenas valores não negativos?

Solução: A $\chi^2$ é uma soma de quadrados, e quadrados de reais nunca são negativos; a sua soma tampouco. A $F$ é uma razão de duas $\chi^2$ (divididas por constantes positivas), e uma razão de quantidades não negativas com denominador positivo é não negativa. Nenhuma das duas pode assumir valores à esquerda de zero, o que já as distingue da normal e da $t$, simétricas em torno de zero.

5. Uma estatística é definida como a razão entre a variância entre grupos e a variância dentro dos grupos. Que distribuição a governa sob a hipótese de que todos os grupos têm a mesma média, e por quê?

Solução: Sob essa hipótese, tanto a variância entre grupos quanto a variância dentro dos grupos estimam a mesma variância comum, e cada uma, escalada, é uma $\chi^2$ dividida por seus graus de liberdade. A razão de duas $\chi^2$ independentes normalizadas é, por definição, uma distribuição $F$. É exatamente a estatística da análise de variância do artigo 11; valores de $F$ muito acima de $1$ indicam que a variação entre grupos excede o que a variação interna explicaria por acaso.

6. Distribuições em C++ e no Colab

Com a matemática assentada, implementamos o cálculo das distribuições e a geração de amostras. O programa abaixo faz três coisas: calcula a pmf da Binomial de forma numericamente estável, avalia a cdf da normal padrão pela função de erro std::erf da biblioteca padrão, e estima uma probabilidade normal por simulação de Monte Carlo, verificando o valor teórico contra o empírico. O cálculo da Binomial evita formar $n!$ diretamente, que estoura para $n$ moderado; em vez disso, acumula o logaritmo do coeficiente e exponencia no fim. Compile com g++ -std=c++23 -O2 -Wall -Wextra -Wconversion -Wshadow -pedantic distribuicoes.cpp -o distribuicoes.

#include <cmath>
#include <cstdint>
#include <iomanip>
#include <iostream>
#include <random>

// Binomial pmf via log-gamma keeps the factorials from overflowing.
double binomial_pmf(int n, int k, double p) {
    if (k < 0 || k > n || p < 0.0 || p > 1.0) {
        return 0.0;
    }
    const double log_coef = std::lgamma(n + 1.0)
                          - std::lgamma(k + 1.0)
                          - std::lgamma(n - k + 1.0);
    const double log_pmf = log_coef
                         + k * std::log(p)
                         + (n - k) * std::log1p(-p);
    return std::exp(log_pmf);
}

// Standard normal cdf: Phi(z) = (1 + erf(z / sqrt(2))) / 2.
double normal_cdf(double z) {
    return 0.5 * (1.0 + std::erf(z / std::sqrt(2.0)));
}

int main() {
    std::cout << std::fixed << std::setprecision(4);

    // Binomial(10, 0.3): the most likely count is three successes.
    std::cout << "P(Binomial(10, 0.3) = 3) = "
              << binomial_pmf(10, 3, 0.3) << '\n';

    // Normal(100, 15^2): probability of the interval (90, 120).
    const double z1 = (90.0 - 100.0) / 15.0;
    const double z2 = (120.0 - 100.0) / 15.0;
    const double p_teorico = normal_cdf(z2) - normal_cdf(z1);
    std::cout << "P(90 < X < 120) teorico = " << p_teorico << '\n';

    // Monte Carlo check with one million draws from the same normal.
    constexpr std::uint64_t repeticoes = 1'000'000;
    std::mt19937 gerador(42);
    std::normal_distribution<double> normal(100.0, 15.0);

    std::uint64_t dentro = 0;
    for (std::uint64_t i = 0; i < repeticoes; ++i) {
        const double x = normal(gerador);
        if (x > 90.0 && x < 120.0) {
            ++dentro;
        }
    }
    const double p_empirico = static_cast<double>(dentro) / repeticoes;
    std::cout << "P(90 < X < 120) Monte Carlo = " << p_empirico << '\n';
}

A saída, com a semente $42$, é

P(Binomial(10, 0.3) = 3) = 0.2668
P(90 < X < 120) teorico = 0.6563
P(90 < X < 120) Monte Carlo = 0.6561

A estimativa de Monte Carlo cai a cerca de $0{,}0002$ do valor teórico, dentro do erro padrão de simulação $\sqrt{p(1-p)/N}\approx0{,}000475$ discutido no artigo anterior. Os últimos dígitos da estimativa não são portáveis: o padrão de C++ não fixa o algoritmo de std::normal_distribution, de modo que bibliotecas diferentes, com a mesma semente, produzem amostras diferentes. O que se mantém entre implementações é a proximidade da estimativa ao valor teórico dentro do erro de simulação, não o dígito exato. No Colab, a mesma tarefa é uma linha por distribuição com scipy.stats: binom.pmf(3, 10, 0.3) para a pmf binomial, norm.cdf(120, 100, 15) - norm.cdf(90, 100, 15) para a probabilidade normal, e norm.rvs(100, 15, size=1_000_000) para gerar a amostra. A biblioteca scipy.stats oferece pmf, pdf, cdf, ppf (a inversa da cdf, ou função quantil) e rvs (geração de amostras) com a mesma interface para dezenas de distribuições, e é a implementação de referência que a turma usará nos laboratórios.

6.1 Exercícios da Seção 6

1. Por que binomial_pmf acumula logaritmos em vez de calcular $n!$, $k!$ e $(n-k)!$ diretamente?

Solução: O fatorial cresce mais rápido que qualquer exponencial: $13!$ já ultrapassa o maior inteiro de $32$ bits, e $171!$ estoura o double. Somar logaritmos com std::lgamma mantém os números em escala administrável e só exponencia o resultado final, que é uma probabilidade entre $0$ e $1$. A troca de produtos por somas de logaritmos é a técnica padrão de estabilidade numérica para coeficientes combinatórios.

2. Qual é a saída de binomial_pmf(10, 11, 0.3) e por quê?

Solução: Retorna $0{,}0$. A primeira condição do programa detecta $k>n$ e devolve zero antes de qualquer cálculo, porque não se podem obter onze sucessos em dez ensaios. A guarda protege também contra o std::lgamma de um argumento negativo, que produziria um resultado sem sentido para a pmf.

3. Por que o código usa std::log1p(-p) em vez de std::log(1.0 - p)?

Solução: std::log1p(x) calcula $\log(1+x)$ com precisão preservada quando $x$ é pequeno em módulo. Para $p$ próximo de zero, $1-p$ é próximo de $1$, e std::log(1.0 - p) perde algarismos significativos na subtração; std::log1p(-p) computa $\log(1-p)$ diretamente sem esse cancelamento. É a mesma preocupação de estabilidade que motivou os logaritmos do coeficiente.

4. A estimativa de Monte Carlo deu $0{,}6567$ contra o teórico $0{,}6563$. Essa diferença invalida a implementação?

Solução: Não. O erro padrão de simulação com $N=10^6$ e $p\approx0{,}656$ é $\sqrt{p(1-p)/N}\approx0{,}000475$. A diferença observada, $0{,}0004$, está abaixo de um erro padrão, portanto é ruído de simulação esperado, não erro de código. Reduzi-la por um fator dez exigiria cem vezes mais repetições, pela dependência $1/\sqrt{N}$.

5. Estenda mentalmente o programa para estimar $\operatorname{E}[X]$ de uma Poisson$(2)$ por Monte Carlo. Que estrutura da biblioteca padrão usar e qual valor esperar?

Solução: Basta trocar a std::normal_distribution por std::poisson_distribution<int> poisson(2.0), somar as amostras geradas e dividir pela contagem. Como a esperança da Poisson é o próprio $\lambda$, o valor estimado deve rondar $2$, com erro padrão $\sqrt{\lambda/N}=\sqrt{2/N}$. A mesma malha de simulação serve a qualquer distribuição da biblioteca <random>, bastando trocar o objeto distribuição.

7. Um laboratório para o zoológico das distribuições

As distribuições deste artigo são fáceis de manipular no papel e difíceis de sentir na intuição: como muda o sino da normal quando o desvio dobra? Que aparência tem a Poisson quando $\lambda$ cresce? O laboratório abaixo transforma cada distribuição em um objeto que a leitora manipula. Escolha a distribuição, ajuste os parâmetros e veja a pmf ou a pdf redesenhar-se, com a esperança e o desvio padrão anotados sobre o gráfico e a cdf acompanhando ao lado. Os presets reproduzem os exemplos numéricos do texto: a Binomial$(10,\,0{,}3)$, a Poisson$(2)$ e a normal $\mathcal{N}(100,15^2)$.

O que o laboratório ensina é que os parâmetros não são rótulos abstratos, mas alavancas de forma. Aumentar $\lambda$ na Poisson desloca o pico para a direita e, ao mesmo tempo, alarga a distribuição, porque a média e a variância crescem juntas. Aumentar $n$ na Binomial com $p$ fixo aproxima o seu perfil do sino normal, uma antecipação visual do teorema central do limite. E variar $\sigma$ na normal muda a largura sem mover o centro, tornando tátil a distinção entre os dois parâmetros que a Seção 3 separou no papel.

7.1 Exercícios da Seção 7

1. No preset da Binomial$(10,\,0{,}3)$, leia no gráfico o valor mais provável e confronte com $\operatorname{E}[X]$.

Solução: A barra mais alta está em $k=3$, com probabilidade $\approx0{,}2668$, e a esperança anotada é $\operatorname{E}[X]=np=3$. Moda e esperança coincidem aqui porque $np$ é inteiro; quando $np$ não é inteiro, a moda é um dos inteiros vizinhos, e o laboratório permite verificar isso movendo $p$.

2. Fixe $\lambda=2$ na Poisson e observe $P(X=1)$ e $P(X=2)$. Por que são iguais?

Solução: A razão entre termos consecutivos da Poisson é $P(X=k)/P(X=k-1)=\lambda/k$. Para $\lambda=2$ e $k=2$, essa razão é $2/2=1$, logo $P(X=2)=P(X=1)$, ambos $\approx0{,}2707$. É o único par consecutivo igual quando $\lambda=2$; para $k>2$ a razão cai abaixo de $1$ e as probabilidades decrescem.

3. Aumente $n$ na Binomial mantendo $p=0{,}3$ e descreva o que ocorre com a forma.

Solução: Com $n$ crescente, o perfil de barras torna-se cada vez mais simétrico e mais parecido com o sino da normal, com o pico em $np$ e largura proporcional a $\sqrt{np(1-p)}$. É a aproximação normal da Binomial, um caso particular do teorema central do limite: a Binomial é uma soma de $n$ Bernoullis, e somas de muitas parcelas independentes tendem à normal.

4. Na normal, dobre $\sigma$ e observe a pdf e a cdf. O que muda em cada uma?

Solução: Na pdf, o sino fica mais baixo e mais largo, mantendo o centro em $\mu$ e a área total igual a $1$: o pico cai porque a mesma massa se espalha por uma faixa maior. Na cdf, a subida em torno de $\mu$ fica mais suave, atravessando o intervalo central de forma mais gradual. O centro não se move em nenhuma das duas; muda apenas a escala horizontal.

5. Configure a normal com $\mu=100$ e $\sigma=15$ e use a leitura da cdf para estimar $P(X<115)$. Compare com o cálculo padronizado.

Solução: O valor $115$ tem escore $z=(115-100)/15=1$, e a cdf padrão dá $\Phi(1)\approx0{,}8413$. A leitura da cdf no laboratório em $x=115$ deve aproximar-se de $0{,}84$. A concordância confirma que a curva desenhada é de fato a acumulada da normal padronizada, e que a regra empírica ($\approx84\%$ abaixo de $\mu+\sigma$, metade dos $68\%$ centrais somada aos $50\%$ inferiores) é consistente com o gráfico.

Método Cálculo ou leitura Resultado
Padronização $z=(115-100)/15=1$ e $\Phi(1)$ $0{,}8413$
Leitura da cdf curva em $x=115$ aproximadamente $0{,}84$

A concordância confirma que a curva acumulada e a padronização representam a mesma probabilidade.

8. Conclusão

Este artigo deu nome e forma ao objeto que a probabilidade descreve e a inferência manipula: a variável aleatória. Definimos a sua esperança e a sua variância, os dois números que resumem uma distribuição como a média e o desvio resumiram uma amostra, e percorremos o pequeno conjunto de distribuições que cobre a maior parte da prática. As de contagem, Bernoulli, Binomial e Poisson, modelam quantos; as de medida, uniforme e normal, modelam quanto; e a normal, sustentada pelo teorema central do limite, é o centro de gravidade de toda a estatística. Aprendemos a desconfiar da normalidade com o QQ-plot e a reconhecer as caudas longas que a quebram, e conhecemos de antemão a família $t$, qui-quadrado e $F$, que a inferência clássica vai usar sem cessar.

O fio a levar adiante é a distinção entre a distribuição de uma variável e a distribuição de uma estatística calculada sobre uma amostra dela. Até aqui, cada distribuição descreveu um dado individual. A inferência precisa de outra coisa: a distribuição da média de uma amostra, do desvio de uma amostra, de qualquer resumo calculado sobre muitos dados. Essa distribuição amostral é o que torna possível falar da população a partir da amostra, e o teorema central do limite é a chave que a abre. O próximo artigo mede a associação entre variáveis e enfrenta a armadilha mais antiga da estatística, confundir correlação com causa, antes que a série vire, no artigo 7, para a amostragem e a distribuição amostral que fundam toda a inferência.

Acrônimos e Abreviações neste artigo

A seguir está a lista de todos os acrônimos e abreviações identificados no texto, organizados em ordem alfabética com o termo original em inglês e a tradução para o português:

Acrônimo / Abreviação Definição em Inglês Tradução em Português
BLAS Basic Linear Algebra Subprograms Subprogramas Básicos de Álgebra Linear
CPU / CPUs Central Processing Unit Unidade Central de Processamento
FLOPs Floating Point Operations Operações de Ponto Flutuante
FP32 32-bit Floating Point Ponto Flutuante de 32 bits
GEMM General Matrix Multiply Multiplicação Geral de Matrizes
GPU Graphics Processing Unit Unidade de Processamento Gráfico
IA Artificial Intelligence Inteligência Artificial
I-JEPA Image Joint-Embedding Predictive Architecture Arquitetura Preditiva de Incorporação Conjunta de Imagem
JEPA Joint-Embedding Predictive Architecture Arquitetura Preditiva de Incorporação Conjunta
KiB Kibibyte Kibibyte
MAE Masked Autoencoder Autocodificador Mascarado
MSE Mean Squared Error Erro Quadrático Médio
MSVC Microsoft Visual C++ Microsoft Visual C++
PCA Principal Component Analysis Análise de Componentes Principais
SIMD Single Instruction, Multiple Data Instrução Única, Múltiplos Dados
SimCLR Simple Framework for Contrastive Learning of Visual Representations Estrutura Simples para Aprendizado Contrastivo de Representações Visuais

Referências

ADHIKARI, A.; DENERO, J.; WAGNER, D. Computational and Inferential Thinking: The Foundations of Data Science. UC Berkeley Data 8. Disponível em: https://inferentialthinking.com/. Acesso em: 23 jul. 2026.

BLITZSTEIN, J. K.; HWANG, J. Introduction to Probability. 2. ed. Harvard Stat 110. Disponível em: https://stat110.hsites.harvard.edu/. Acesso em: 23 jul. 2026.

LARSON, R.; FARBER, B. Estatística aplicada. 6. ed. São Paulo: Pearson, 2015.

ORLOFF, J.; BLOOM, J. 18.05 Introduction to Probability and Statistics. MIT OpenCourseWare, 2022. Disponível em: https://ocw.mit.edu/courses/18-05-introduction-to-probability-and-statistics-spring-2022/. Acesso em: 23 jul. 2026.

QUINSLER, A. P. Probabilidade e estatística. 1. ed. Curitiba: Intersaberes, 2022. E-book. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br/Acervo/Publicacao/200204. Acesso em: 23 jul. 2026.

WALPOLE, R. E. et al. Probabilidade e estatística: para engenharia e ciências. 8. ed. São Paulo: Pearson, 2008.

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