Ao mais forte. A carreira póstuma de Alexandre
por Frank de Alcantara em 24/07/2026
O sol estava para se pôr sobre as terras da Babilônia no ano de 323 a.C., e, de um balcão em seu palácio, um jovem rei contemplava seu domínio. A luz dourada do fim de tarde banhava o vale do Eufrates enquanto seus pensamentos talvez vagassem pelas águas do canal de Pallacopas, buscando domar as enchentes do rio Eufrates, ou marchassem rumo ao sul, desenhando a iminente invasão da Arábia, ou, quem sabe, repousassem na memória de alguma amante. A coroa de Alexandre, forjada em glória e sangue, não era um fardo leve.
Naquele instante, sob o crepúsculo babilônico, Alexandre, aos 32 anos, governava uma extensão de terra que desafiava a compreensão humana. O espaço sob seu domínio abrangia pouco mais de cinco milhões de quilômetros quadrados. Um rei em plena marcha, tendo engolido a maior parte do antigo Império Aquemênida, com os olhos possivelmente já cravados nas terras periféricas além do fim do mundo e na Arábia.
Como falante do grego antigo, Alexandre não moldava seu vasto domínio como um Estado único, administrativo e centralizado aos moldes romanos. A imagem que as telas modernas tantas vezes popularizaram. Era, antes, o detentor de uma coleção de coroas e posições de poder que convergiam exclusivamente na sua figura. Olhando através da névoa de mais de dois milênios, é possível imaginar que ele se visse como um verdadeiro colecionador de reinos.
Não era ele um homem de estatura imponente, como os antigos heróis que ergueram as muralhas de pedra de seu reino, nem se erguia alto entre os veteranos de guerra da Macedônia. Contudo, quando se sentava nos grandes tronos dos senhores caídos do leste, sua presença preenchia os salões de tal forma que mesmo os mais altos guerreiros pareciam apequenar-se sob sua sombra. Seu valor, não sua altura, impunham o respeito e a admiração de todos na sala.
Seus cabelos espessos e indomáveis lembravam a juba de um leão dourado. Os fios nasciam rebeldes no alto da testa, erguendo-se como a crista de uma onda antes de cair em mechas castanho-claras, beijadas pelo sol. A pele, demasiadamente alva para os desertos impiedosos que cruzara, traía o sangue de sua linhagem; inflamava-se rapidamente, pintando seu rosto e peito com um rubor feroz quando o fogo da batalha ou da ira o tomava. Ao contrário dos antigos reis de barbas longas e grisalhas, seu rosto mantinha-se liso e limpo, como o de um jovem senhor dos Dias Antigos que não conhece o desgaste do tempo.
Havia nele uma peculiaridade de postura, um leve inclinar do pescoço para a esquerda, como se estivesse sempre a escutar o sopro dos deuses ou o murmúrio de terras distantes. Mas eram os seus olhos que aprisionavam a alma daqueles que ousassem encará-lo. Dizem os cantos de outrora que possuíam o brilho úmido e líquido das águas profundas, sempre voltados ligeiramente para o alto, buscando a vastidão do céu. E não eram iguais, como se duas heranças distintas habitassem o mesmo corpo: um olho carregava a escuridão da terra profunda, castanho e insondável, enquanto o outro brilhava claro, como a névoa cinzenta do mar antes da tempestade.
Até mesmo o ar ao seu redor parecia tocado por uma graça que não pertencia ao mundo dos mortais comuns. De sua pele e de suas vestes não emanava o cheiro de suor e poeira das longas marchas, mas um perfume doce e sutil, como o aroma de incensos esquecidos e flores do oeste que desabrocham apenas à luz das estrelas. Assim caminhava o rei macedônio, um homem que parecia forjado não apenas de carne e osso, mas do próprio fogo que consome e ilumina os mitos.
A legitimidade de seu governo mudava de forma conforme a terra que pisava:
Na Macedônia: Ele sentava no trono como o Basileus (Rei).
Na Grécia: Ele exercia o papel de Hegemon (Comandante ou Líder Supremo) da Liga de Corinto, governando as cidades-Estado sob a sombra da sua própria hegemonia.
No Egito: Ele foi coroado e reconhecido pelo povo e pelos sumos sacerdotes como Faraó.
Nos territórios persas: Após a queda de Dario III, assumiu o peso do antigo trono aquemênida, sendo chamado pelos gregos de Kyrios tes Asias (Senhor da Ásia) e encarnando o poder equivalente ao Shahanshah (Rei dos Reis).
Nós, modernos e latinizados, agrupamos essa vasta e complexa tapeçaria de reinos sob o nome de Império de Alexandre III da Macedônia, a quem os romanos, gerações depois, chamariam de O Grande. Título que chegou a era da inteligência artificial, fomentando a imaginação de jovens guerreiros ao longo dos últimos milênios.
Para que a esforçada leitora contemporânea compreenda a magnitude desse domínio, é preciso traduzir os antigos mapas para as fronteiras instáveis de hoje. O domínio começava na Macedônia e nos Bálcãs, banhados pelo Mar Adriático, estendendo-se por terras que hoje formam a Grécia, a Macedônia do Norte e a Albânia. Atravessava a Anatólia, na atual Turquia, e descia como uma tempestade pelo Levante, englobando as terras que hoje são Síria, Líbano e Israel, até desaguar no Egito. Mais ao leste, cobria a Mesopotâmia, atual Iraque, e o coração do antigo Império Persa, abarcando as modernas nações do Irã e do Afeganistão, engolindo regiões remotas como Báctria e Sogdiana, até esbarrar nas águas do rio Indo, no atual Paquistão. Todo esse mundo foi unificado sob a mesma vontade em apenas treze anos de campanhas militares ininterruptas. Treze anos.
Treze anos cabem mal em um parágrafo. Cabem melhor em um mapa que se mexe. A animação abaixo repete, indefinidamente, a expansão daquele domínio entre a morte de Filipe e a morte de Alexandre: a mancha do território cresce na data em que cada satrapia caiu, e a linha da marcha avança por conta própria, sem esperar pela fronteira. A esforçada leitora que quiser conferir o descompasso entre as duas coisas pode pausar a animação e arrastar a barra do tempo. Descobrirá que o rei passou boa parte da vida adulta em lugares que ainda não lhe pertenciam, e o resto dela em lugares que já não visitaria de novo.
Um mês se passou desde aquele entardecer sem que o prenúncio da tragédia se anunciasse. Dias sucederam noites até o oitavo, ou nono dia de junho de 323 a.C. O dia do último banquete.
Os grandes salões do palácio de Nabucodonosor ressoavam com o eco de canções de glória, e a luz tremeluzente de mil tochas afastava as sombras da antiga Babilônia. Médio de Lárissa, anfitrião daquela noite, havia preparado um banquete digno dos grandes heróis da antiguidade. Taças de ouro maciço, forjadas com os espólios de impérios caídos, transbordavam com o vinho negro e doce do leste. A fumaça de carnes assadas e incensos raros pairava no ar denso do vale do Eufrates.
No centro da alta mesa estava Alexandre. A coroa de seus triunfos parecia repousar leve sobre seus cabelos, mas seus olhos, que outrora espelhavam o fogo da juventude e a sede de mundos desconhecidos, carregavam um cansaço antigo. Muito além dos seus 32 anos, um cansaço secular. Ao seu redor, a Irmandade dos generais ria e celebrava. Ptolomeu e Pérdicas erguiam seus cálices, relembrando as investidas heroicas nos desfiladeiros íngremes do Hindu Kush e a poeira dourada de Gaugamela. Nearco, com a pele curtida pelos ventos do sul, tecia histórias sobre o vasto Mar de Prata e as feras das profundezas, mantendo os ouvintes cativos. Irmandade criada no sangue da guerra e da conquista.
Afastado do calor das chamas, no canto mais escuro do salão, Cassandro observava. Chegado há pouco das terras frias da Macedônia, seu rosto era uma máscara inescrutável, e seus olhos acompanhavam cada movimento do rei com a frieza de uma lâmina aguardando na bainha. Talvez ele ainda não saiba, mas o ódio que alimenta pela família de Alexandre gerará frutos. Ao longe, fora dos ciclos mais íntimos, ele trama, odeia e espera.
A noite avançava profunda, e as estrelas do deserto giravam no céu escuro lá fora. Foi então que a taça de Héracles, um cálice vasto e temível que exigia a força de um titã para ser esvaziado, foi levada às mãos de Alexandre. Ele a ergueu em um brinde final, clamando aos imortais e celebrando a grande marcha que estava por vir rumo às areias do sul. A Irmandade bradou em uníssono, o som de suas vozes ecoando contra a pedra entalhada.
O Rei levou o vinho aos lábios e bebeu profundamente.
De repente, o riso morreu no salão. Um grito abafado, como o de um homem atingido em batalha, escapou da garganta de Alexandre. A taça de ouro escorregou de suas mãos, caindo e tilintando contra o piso de mármore. Um som agudo e terrível, como o de uma espada que se estilhaça, e pode ser ouvido ainda hoje, nas ruínas da Babilônia. Alexandre, O Grande, curvou-se para a frente, agarrando o próprio peito. Seus companheiros viram seu rosto empalidecer, contorcido pela agonia, como se uma lança negra e invisível, atirada pela própria Morte das sombras daquele salão, o houvesse trespassado.
O silêncio caiu pesado como um manto fúnebre. A música dos alaúdes cessou bruscamente. O terror, frio e rastejante, tomou os corações dos senhores da guerra que jamais haviam recuado diante de exércitos de mortais. Ptolomeu e Pérdicas correram para o lado do monarca, amparando-o antes que caísse. Cassandro, desapareceu nas sobras.
Sem o estrondo de tambores ou o som de trombetas, a grande festa terminou. O Rei foi erguido pelos braços fortes de seus capitães e levado para longe da luz das tochas, adentrando os corredores escuros em direção aos seus aposentos. Os outros, a corte, os chacais que se alimentam dos restos do poder se retiraram fofocando. Ninguém notou a ausência de Cassandro. Ninguém notou que ali, naquela noite de celebração interrompida, a grande roda do destino girou. O veneno da doença tomou sua raiz, e a longa vigília que culminaria na quebra da Irmandade. O fim havia começado, quase em silêncio.
Sucederam-se os dias e as noites, marcados não mais por marchas gloriosas ou conselhos de guerra, mas pela lenta e cruel conquista da doença. Aquele que havia atravessado montanhas e rios caudalosos sentiu seus membros tornarem-se pesados como chumbo, acorrentados por uma paralisia que subia sorrateiramente. A voz que um dia ecoara como o trovão sobre os planaltos de Gaugamela clareou-se em sussurros, até que, por fim, o silêncio trancou seus lábios. Seus olhos, contudo, ainda ardiam como duas estrelas poentes em um céu de tormenta, testemunhando o fim de uma era. Jazendo como uma estátua de marfim num mar de sombras, ele mantinha-se consciente enquanto seu reino corporal ruía. Alexandre, O Grande, agonizava.
E eis que o boato do crepúsculo do rei espalhou-se pela Hoste. Um clamor levantou-se nos acampamentos, um desejo desesperado dos veteranos de escudos desgastados: ver seu comandante uma última vez. Como uma torrente que rompe a represa, a grande infantaria macedônia fluiu pelos salões dourados em marcha fúnebre. Sem tambores, sem trombetas, apenas o som abafado de milhares de pés sobre a pedra. Eles passaram diante de seu leito. Alexandre, reunindo a derradeira faísca de sua vontade, ergueu o olhar e, com um leve movimento da mão pálida, acenou-lhes em adeus. Foi uma despedida silenciosa entre os guerreiros e o seu Senhor, uma irmandade que a morte agora partia. Alexandre, O Grande, agonizava.
Nos momentos finais, quando o véu entre a vida e a morte já era tênue, seus generais, os grandes capitães que agora sentiam o frio do medo, aproximaram-se de seu leito. Ptolomeu, Pérdicas e Seleuco buscavam uma direção, um herdeiro para a imensidão do mundo que haviam subjugado. Com a respiração falha, como um vento fraco que sopra sobre ruínas, Alexandre proferiu suas últimas e terríveis palavras, uma profecia que ecoaria pelos séculos. Quando perguntado a quem ele legava o seu reino, ele disse: “Ao mais forte”.
Não foi um testamento de paz, mas uma semente de caos. Com essas palavras, ele lançou uma maldição de discórdia sobre tudo o que construíra. No momento em que seu espírito passou para os salões de seus ancestrais, o grande império, unido apenas por sua vontade de ferro, trincou. As estrelas pareceram piscar e apagar-se sobre a Babilônia, e o silêncio que se seguiu foi quebrado não pelo luto, mas pelo som agudo e terrível de espadas sendo desembainhadas na escuridão. A quebra da Irmandade estava completa, e o tempo da longa noite dos Sucessores havia começado.
O tempo necessário para a criação desse imenso domínio contrasta violentamente com a efemeridade de sua estabilidade. Assim que Alexandre foi declarado morto na Babilônia, na tarde de 10 de junho de 323 a.C., o império começou a fraturar-se. Imediatamente, seus generais, os Diádocos, iniciaram uma disputa não apenas pelas províncias e tesouros, mas pelo símbolo máximo de legitimidade e poder: o próprio corpo do imperador.
O mais forte, será aquele que dominar e controlar o corpo de Alexandre. Uma casca vazia que representa o poder em si.
A epopeia de seus restos mortais é, possivelmente, uma das mais fascinantes jornadas póstumas da história. Alexandre havia expressado o desejo de descansar no Egito, nas areias calmas do oásis de Amon. A hoste macedônia, no entanto, decidiu inicialmente que o rei deveria repousar em Egas, a antiga necrópole real na Macedônia. Contra a vontade de Cassandro seu corpo foi cuidadosamente mumificado, banhado em especiarias e colocado em um sarcófago de ouro maciço, digno de um deus. Para seus guerreiros, muito pouco para Alexandre.
Lembrem-se: Ao mais forte.
A grande reviravolta ocorreu em 321 a.C., quando o majestoso cortejo fúnebre fazia seu longo caminho em direção à Macedônia. Ptolomeu Lagides, o general que havia assegurado o domínio do Egito e que forjaria a dinastia de Ptolomeu I Sóter, sequestrou a caravana mortuária e desviou o corpo para o sul. O cadáver foi inicialmente depositado em Mênfis, a antiga e venerável capital egípcia, no Serapeum, muito possivelmente ocupando o sarcófago de pedra originalmente escavado para o faraó Nectanebo II. Ptolomeu usou o imenso prestígio do conquistador caído para solidificar seu próprio reinado, criando uma dinastia que entrelaçaria as tradições greco-macedônicas à magia e ao mistério da cultura faraônica. Cleópatra encerra esta dinastia encerra esta dinastia com pompa e circunstância.
A longa jornada do rei não terminou em Mênfis. Não encontrou a paz em vida e nem o descanso na morte.
Anos depois, por volta de 280 a.C., Ptolomeu II Filadelfo transferiu o corpo para a nova e cintilante capital, Alexandria. Naquele lugar, um complexo monumental chamado Soma, ou Sema, foi erguido no coração da cidade, uma estrutura de colunas e mármore que serviu de mausoléu para Alexandre e para as gerações subsequentes da dinastia ptolomaica. Ali, finalmente, ele deixou de ser apenas um líder morto para ser venerado como um deus, recebendo sacrifícios e homenagens equivalentes aos prestados aos imortais.
Durante todo o período romano, o túmulo permaneceu como uma estrutura magnífica, visitada e reverenciada por imperadores. Alexandre, O Grande, o ideal de poder e sucesso.
Uma sombra de discórdia caiu sobre a cidade do Egito. Em tempos de tumultos civis e fúria fratricida, como no motim contra o rei Ptolomeu Lathyros, o Lugar de Descanso foi violado por mãos gananciosas, e tesouros antigos foram pilhados.
Séculos depois, no crepúsculo da terceira idade de Roma, uma guerra maior assolou o mundo. O imperador Aureliano, em sua ira, sitiou a orgulhosa Alexandria e entregou o bairro real de Brucheion à ruína e ao fogo. Teme-se que nessa devastação o Soma, onde o Rei repousava, tenha sido derrubado e suas torres altas postas por terra.
E quando a antiga fé do mundo empalideceu perante o Cristianismo, imperadores do Oriente, como Teodósio, o Fiel, moveram guerra contra os ídolos e os templos de outrora. Como o monarca macedônio era reverenciado como uma divindade pelos povos que subjugara, seu mausoléu pode ter sido alvo do zelo purificador e sua memória apagada pelos golpes da nova ordem. Ainda que isso não seja certo, nem registrado, há quem transfira a culpa a nova fé, principalmente aqueles que a temiam.
Por fim, onde a mão dos homens falhou em destruir totalmente, a própria terra e o mar se levantaram em fúria. No ano que os cronistas antigos marcam como 365 da era cristã, as fundações do mundo estremeceram. Um grande terremoto abalou o Mediterrâneo e Alexandria, e logo após, uma muralha de água amarga, o terrível Tsunami, avançou do Grande Mar. As ondas tragaram as muralhas costeiras e as maravilhas da antiga cidade. Nesse cataclismo, o Soma pode ter sido arrastado pela terra ou reclamado pelo abismo, jazendo agora em ruínas sob as águas cinzentas, esquecido por todos, exceto talvez pelas profundezas. Ou não, a verdade, moderna leitora é que ninguém sabe.
Eis uma crônica que as sombras do tempo tentaram apagar, sussurrada apenas entre os sábios que guardam a sabedoria das Eras antigas. É o conto de duas sombras que se cruzaram na mesma cidade, separadas por séculos, mas unidas por um destino misterioso e uma mentira que enganou o mundo.
Uma sombra era a de Alexandre, o Basileus, o Senhor da Ásia, cujo corpo jazia em glória no Soma de ouro em Alexandria, adorado como um deus pelos povos que subjugara. A outra sombra, mais jovem e portadora de uma nova luz, era a de Marcos, o Evangelista, o seguidor da Cruz, que após trazer as boas novas à terra do Egito, foi martirizado e seus ossos sagrados guardados em uma basílica na mesma cidade.
Sucedeu que, quando a antiga fé do mundo empalideceu perante a Cruz e o poder dos imperadores cristãos como Teodósio subiu, o Soma foi abandonado. O corpo de Alexandre, outrora reverenciado, tornou-se alvo de fúria e purificação. A Irmandade estava desfeita, e o tempo da longa noite dos ídolos pagãos havia começado.
Teme-se que, para salvar os ossos do grande monarca macedônio do zelo purificador e do esquecimento absoluto, uma sagrada mentira foi tecida por guardiões astutos que não suportavam ver a glória de outrora ser pisoteada. Tumba foi violada, e o nome do Rei foi apagado de seu lugar de descanso. No seu lugar, o nome do Santo foi colocado. O Senhor da Ásia foi escondido sob o manto do Santo Evangelista.
Séculos depois, homens do Oeste, da cidade das lagoas e canais, vieram em silêncio e, com astúcia, violaram a tumba onde jaziam as relíquias que o mundo acreditava serem de Marcos. Eles levaram os ossos sagrados para longe, para a distante cidade de Veneza, onde agora jazem numa imensa basílica que carrega seu nome, cercada de cantos e orações de fidelidade.
E assim, muitos pranteiam e adoram as relíquias como sendo as do Santo Marcos, sem saber que talvez estejam se ajoelhando perante as cinzas daquele que subjugou o mundo, escondido por uma mentira que venceu as eras. É um conto de sombras e enganos, onde a glória de outrora sobrevive sob um nome estrangeiro, misturando o sangue de reis pagãos com a santidade dos seguidores da Cruz, numa irmandade forjada no crepúsculo da história.
A segunda animação acompanha o cadáver, e é uma viagem consideravelmente mais longa do que a primeira. Cada etapa vem marcada com o grau de certeza que as fontes autorizam, em verde, âmbar ou vermelho, e a leitora atenta há de notar que o vermelho só aparece depois que o túmulo desaparece do registro escrito, por volta do ano 400. Tudo o que vem em seguida, São Marcos inclusive, é hipótese vestida de crônica. Clique em qualquer faixa da fita cronológica para saltar direto ao episódio que interessar.
Em Vergina, na Tumba dos Reis existem restos humanos de parentes de primeiro grau de Alexandre (pai ou irmão). Agora, imagine, um simples teste de DNA, com os restos de São Marcos, que estão na Basílica de São Marcos em Veneza, poderia trazer Alexandre, O Grande, de volta. Não a vida, mas ao centro das atenções. Talvez, este fosse um fim mais digno.
Referências
AMIANO MARCELINO. Res Gestae, livros XXII e XXVI. Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1935–1940. ARRIANO. Anabasis Alexandri; História dos Sucessores de Alexandre, epítome de Fócio. Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1976. CHUGG, Andrew. The Lost Tomb of Alexander the Great. Academia.edu, 2018. Disponível em: https://www.academia.edu/37896583/The_Lost_Tomb_of_Alexander_the_Great. DIODORO SÍCULO. Bibliotheca Historica, livros XVII e XVIII. Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1947–1963. ESTRABÃO. Geographica, livro XVII. Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1932. GERKIS, Caroline. Fluidity of Ptolemaic Tomb Architecture: Third to Second Centuries BCE. CUNY Academic Works, 2020. Disponível em: https://academicworks.cuny.edu/gc_etds/5259/. INSEAD. “Doing an Alexander”: Lessons on Leadership by a Master Conqueror. INSEAD, 2003. Disponível em: https://flora.insead.edu/fichiersti_wp/inseadwp2003/2003-16.pdf. KONTES, Zoë Sophia. The Dating of the Coinage of Alexander the Great. Joukowsky Institute for Archaeology and the Ancient World, Brown University, 2009. Disponível em: https://archaeology.brown.edu/native-publications/dating-coinage-alexander-great. PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia, livro I. Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1918. PLUTARCO. Vidas Paralelas: Alexandre. Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1919. SUETÔNIO. Vida dos Doze Césares: Augusto. Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1914. UNIVERSITY COLLEGE LONDON. Alexander the Great. Digital Egypt for Universities, UCL, 2000. Disponível em: https://www.ucl.ac.uk/museums-static/digitalegypt/chronology/alexandergreat.html. UNIVERSITY OF GLASGOW. Alexander III the Great. Theses Archive, University of Glasgow, 2013. Disponível em: https://theses.gla.ac.uk/76180/1/13819010.pdf. XAVIER UNIVERSITY. Cultural Collapse of the Seleucid Empire. Xavier University Exhibit, 2015. Disponível em: https://www.exhibit.xavier.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1047&context=hab.